TRANSATRAVESSADOS

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23 de agosto de 2013

Serpenteologia

Imagine quem criou 
sem rabo esse Adão 
que logo criou Deus. 
Torpe criava serpente 
(em lugar da costela) 
criada a comer maçã. 
Conheceu Eva a bela 
(essa que é sua irmã) 
e só fodem de frente. 
E aí Deus criou Satã 
esse tão nobre diabo 
que criou a religião. 


4 de julho de 2013

Devoré

Se palavras de veludo molhado
fossem ditas, soaria decadente?
Seu som seria belo o suficiente
ou combinaria melhor o couro cru do brado?

[Adoente.
Enteado.]

Quero vestir bem o palavreado
para cada peça parecer fluente
sem causar impressão decente.
Estaria à flor da pele de veado
se eu usasse algo transparente.
A hora requer traje apropriado
para provar melhor ao bocado
e então indago: estou al dente?

[Enteado.
Adoente.]

E por sinal trajarei algo quente,
sobretudo por já estar atrasado.
O Tempo frio me espera pelado
para sua ceia, e seria o fim não estar presente.


23 de maio de 2013

en prise


para dois pontos numinosos
para um lance raro no dia escuro
para que o silêncio seja sua captura
para as suas noites despidas de ludo
para que peças de madeira feitas
para se abraçar em uníssono
bastam só dois dedos de amor no abismo
e se desvendam suas duas estrelas de anis
alcança de súbito o interior
segue adiante sem dons de ver
para à plebeia morte ser promovida
se mesmo as maestrias macias de segunda
tem a tara de pau de árvores genealógicas
de cujas copas os teus óleos se derramam
vistos desde o inaudível húmido solo
encastelado no sudoeste da hora
a cada gota ainda mais queda
um lençol encobria o céu em sonho a pino
e tão recorrente destino não há hoje em dia



4 de abril de 2013

Emilly


A minha mulher tem dois éles
e se desloca elástica em mim
                                              e voa para dentro do próprio sangue
                                                                por fora do corpo e de si
                                                                             quando me ama
                 e dança.
Jovem virgem que lê e dança a mais bela
minha namoramada mulher
quer me desposar
                            quer-me na primavera.
Quero-lhe o hímen, a mão, o sim e o sim.
Quero-a então para sempre só para mim.
Tira-me do sério (ó Destino)
e para dançar fora dos livros. E ela lê e me lê com éles nos óculos-
                                                              ósculos tranquilométricos
e me ama. Amo-a. Ela tem asas nos olhos e nos éles do meu amor 
sem calcinha. Ela é só minha.
Bela musa virgem se isso é possível não é possível depois de mim:
ela a quem sempre amar à primeira vista,
sangrada pelo poeta-plateia,
                                              volta ao corpo a escrever nua no ar
                                              o poema que com dois éles me cala
                                              ilegível no infalível fim que se infla
                                             com quem é o escolhido a deflorá-la.
Ela a mulher artista a melhor conquista a única que desejo cantar
                                               pois este fauno alcançou sua ninfa.



7 de março de 2013

Seres, Sóis e Sinais


Sonho em me aculturar
por um contato estreito
com um amigo primitivo,
porém não consigo achar
o sujeito de estudo vivo.

E entretanto,
infelizmente,
há mais morto
do que vivente
e posso herdar,
na era moderna,
somente a cultura
daquele velho horto
escrita na caverna-lar
que figura em seu canto.

Ir pelo bonito sítio rupestre
repleto de estranhos petróglifos
a céu aberto e parcialmente submerso
em afloramentos rochosos areníticos, graníticos.
Ler em páginas de pedra os sonhos esquecidos,
fotodocumentados, georreferenciados,
uma vez escritos diante do fogo
no escuro antigo do tempo.

“A arte primitiva requer restauro?”
“De origem indígena pré-colonial,
é a forma pré-histórica
de comunicação visual
alheia a nossa era pós-histórica?”
“As linguagens gráfico-simbólicas
da comunidade autora
serão tão hiperbólicas
como uma nova arte promissora?”
Interrogava-se o Saussuressauro.

Na caverna 
nada o-
mito.