TRANSATRAVESSADOS

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8 de agosto de 2013

4

A manhã de primavera 
convida a vir para fora 
sentir uma brisa esguia 
como tanto dizia o avô 
ler em sua hora o calor 
que indeniza da espera 
e faz brotar o que a flor 
quer dizer com o canto 
a crescer em Rimbaud: 
de cordial a carnal, o rouxinol sob o sol. 

A tarde de verão 
cuja perspectiva 
caso não se note 
era bem que arde 
se chora madura 
do que foi botão 
vem braço dado 
e emoldura a via 
com Caillebotte: 
poças rasas de passos por baixo da chuva suja. 


A noite de outono 
a ventar o espetro 
da má companhia 
ou raro abandono 
na falta desse laço 
pó de ser ninguém 
que é música vazia 
a alentar o séquito 
por trás de Cobain: 
alguma corda de aço em seu braço sem dó. 

A madrugada de inverno 
precipita o seu nó futuro 
sobre o cabelo tão níveo 
no abotoar do terno de lã 
que visita ainda acamada 
leva das dores ao buraco 
o sofrível quarto escuro 
mas belo a restar no fim 
dos cafés com Bergman: 
violoncelo tabaco, cobertores carmim. 



30 de maio de 2013

Buster Keaton

cara de pedra 
louco acrobata 
intrépido poeta 
quem te ampara? 
belo saltimbanco 
em preto e branco 
por que te arriscas 
às quedas e faíscas? 
talvez por travessura 
ou porventura mudez 
jamais saias do ângulo 
se não estás sonâmbulo! 
porque tu sempre corres 
veloz para a imensa ação 
e rio e choro e não morres 
nem mesmo contra canhão! 
e nenhuma vez ris ou choras 
de ódio ou de amor no cinema 
diante dos vis ou se te enamoras 
como se já projetasses este poema 



23 de maio de 2013

en prise


para dois pontos numinosos
para um lance raro no dia escuro
para que o silêncio seja sua captura
para as suas noites despidas de ludo
para que peças de madeira feitas
para se abraçar em uníssono
bastam só dois dedos de amor no abismo
e se desvendam suas duas estrelas de anis
alcança de súbito o interior
segue adiante sem dons de ver
para à plebeia morte ser promovida
se mesmo as maestrias macias de segunda
tem a tara de pau de árvores genealógicas
de cujas copas os teus óleos se derramam
vistos desde o inaudível húmido solo
encastelado no sudoeste da hora
a cada gota ainda mais queda
um lençol encobria o céu em sonho a pino
e tão recorrente destino não há hoje em dia



9 de maio de 2013

azul Gitanes

quando os dois lados da minha vela se encontram e nada vejo 
caio em mim pois de repente um compacto chão acontece 
e a água – reflexo que desliza – vem salvar minha vida 
alçando-me ao ar no qual a menor substância pesa 

leve este meu ser transmutado em fumo 
e voo e voo e voo e voo e voo e 
num céu de azul Gitanes 
me vou sem rumo 

sem 
juízo 
final 



21 de fevereiro de 2013

dormir, sonhar, despertar



dormir
não sem qualquer resistência
a tão sutil fração de suicídio
e, por
desejar profundo,
atingir
a superfície de si

sonhar
como quem já é 
para estar sem fundamento
e, em não caber,
deixar-se andar livremente
para mais saber
quanto mais se é sonhado

despertar
sem decapitar o sonho
condenado ao dia
por ter drogado a noite
e, ao longo dessa
debilíssima vigília,
continuar despertando


 

10 de janeiro de 2013

Resoluções de (ano) novo




Não me deprimir com tudo aquilo que normalmente alegra
Jogar muito xadrez, adotar um gato preto e não pensar em viajar
Chorar menos, exceção aos Bergmans que confirmam a regra
Ganhar algum dinheiro, nem que para isso seja preciso trabalhar

Ir mais ao teatro, não ir menos ao cinema, ou reciclar relógios
Fumar apenas depois de comer e comer com mais frequência
Ser menos territorialista, dividindo meu espaço em episódios
Parar com as aventuras e tentar suicídios com mais prudência

Beber água e dormir, para dar uma variada ou mesmo sobreviver
Arriscar-me a discordar de Nietzsche, Cioran e Schopenhauer
Nunca perdoar e nunca capitular, e, sempre que possível, esquecer
Aliviar nos assuntos, sem no entanto incorrer no Flower Power

Nunca deixar a cor me distrair da profundidade em Van Gogh
Fotografar somente em P&B para enxergar mais com menos cores
Deve ser urgente reler Huidobro, reouvir Monk, rever Herzog
Afastar-me das criaturas que costumam se aproximar de criadores

Escrever menos e ler menos ainda, e, falar e ouvir, jamais
Legar à posteridade uns quinhentos nus frontais, enquanto duro
Amar mais através do sexo do que foder amando demais
Evitar relacionamentos à distância, sobretudo com os do futuro 


1 de outubro de 2012

Um espaço de cada vez ou uma década a fazer este poema



Intervalo vazio. É ataraxia
entre dois clichês,
hiato entre tédios,
menos que espaço: vírgula.

E mistério em plena deriva: zona branca
posterior à calmaria que sucede a ação,
anterior à angústia que antecede a ação.

Ato entre o lastro e o impulso,
modo do gesto que é quase efeito
no momento crucial das peripécias, avulso,
ou movimento essencial entre duas inércias do peito.

Sucessões de cessações das sensações
aptas a jazer entre um não e o não ser,
é espesso espaço, portanto. Existe ali.

Indisposição sutil para o cada vez menos vago, logo à frente,
para o pouco indulgente, para o que há devagar tão abstrato.
Lassidão com que lá se dão o algo, o impreciso e o reticente.
Interstício entre sonho e sonho, é longa pausa para o não-ato
ou dolce far niente.

Primeiro conceito de lazer do mundo, a própria Poesia a apoia.
Superfície que ascende preocupada em fazer crescer seu fundo,
a preguiça sequer boia.
Nada a fazer.