TRANSATRAVESSADOS

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30 de maio de 2013

Buster Keaton

cara de pedra 
louco acrobata 
intrépido poeta 
quem te ampara? 
belo saltimbanco 
em preto e branco 
por que te arriscas 
às quedas e faíscas? 
talvez por travessura 
ou porventura mudez 
jamais saias do ângulo 
se não estás sonâmbulo! 
porque tu sempre corres 
veloz para a imensa ação 
e rio e choro e não morres 
nem mesmo contra canhão! 
e nenhuma vez ris ou choras 
de ódio ou de amor no cinema 
diante dos vis ou se te enamoras 
como se já projetasses este poema 



4 de abril de 2013

Emilly


A minha mulher tem dois éles
e se desloca elástica em mim
                                              e voa para dentro do próprio sangue
                                                                por fora do corpo e de si
                                                                             quando me ama
                 e dança.
Jovem virgem que lê e dança a mais bela
minha namoramada mulher
quer me desposar
                            quer-me na primavera.
Quero-lhe o hímen, a mão, o sim e o sim.
Quero-a então para sempre só para mim.
Tira-me do sério (ó Destino)
e para dançar fora dos livros. E ela lê e me lê com éles nos óculos-
                                                              ósculos tranquilométricos
e me ama. Amo-a. Ela tem asas nos olhos e nos éles do meu amor 
sem calcinha. Ela é só minha.
Bela musa virgem se isso é possível não é possível depois de mim:
ela a quem sempre amar à primeira vista,
sangrada pelo poeta-plateia,
                                              volta ao corpo a escrever nua no ar
                                              o poema que com dois éles me cala
                                              ilegível no infalível fim que se infla
                                             com quem é o escolhido a deflorá-la.
Ela a mulher artista a melhor conquista a única que desejo cantar
                                               pois este fauno alcançou sua ninfa.



23 de novembro de 2012

Corpo





É a massa abjeta de sentidos e sentimentos,
excremento dos deuses, barro informe do não-ser deus.
No umbigo dessa ideia, por alta casuística,
estamos menos adâmicos, menos edênicos,
mas mais humanizados, demasiados.
Somos o universo no centro do corpo,
a coisa de todas as medidas.
Em sua corporalidade, fisicalidade, é o próprio estar do ser.
Nossos corpos são o muro da metafísica,
o alimento da guerra,
a pátina do tempo.
O nu, único realismo possível ao corpo, é atemporal;
a despeito de toda anedótica moda e cosmética efêmera.
É justamente em sua imensa vulnerabilidade
que reside sua maior força,
a de estar provisório e de ser impermanente,
passageiro, ao mesmo tempo em que é transporte.
Sua decrepitude o torna eterno, sua tangibilidade o faz icônico.
No corpo, a banalidade o faz inédito,
e o desinteresse que nos causa a nossa familiaridade com ele
é a fonte mesma de toda sensualidade.
O corpo humano é composto pelos quatro elementos:
a água, representada pelo hidrogênio
(pelo que se tem sede e chora),
o ar em forma de oxigênio
(aquilo que se suspira),
a terra como carbono
(aquilo que sobra no final),
e fogo, representado pelo nitrogênio
(com cujo sal se faz a pólvora e, com doçura, o amor).
O corpo é dividido em três partes: sonho, dor e gestos.
A isso tudo se pode incorporar mais o que se quiser,
já que o corpo é escravo da mente,
embora o contrário também se verifique;
o corpo tudo acata, como uma página em branco;
ele sofre tudo, quase nunca calado, mas sempre sofre.
O corpo sobrevive a tudo,
já que quando morre já não o chamamos mais corpo,
senão cadáver.