TRANSATRAVESSADOS

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11 de julho de 2013

parabolae

lagos de sentido e alcatrão, 
saídas de falsas fechaduras, 
nódoa, poças de escuridão, 
tipos de arcaicas máquinas, 
cabeças com chifres, hastes, 
celibatos de linhas impuras, 
manchas de vácuo ou nada, 
oposto essencial, contrastes, 
limiares para furar páginas, 
arca anárquica de ateísmos, 
monólito ao todo, em cada, 
as palavras são vis abismos 



6 de junho de 2013

Homem que é-homem, como Genésio, depois de morto, rasteja inda diversas léguas. Serpenteara de érrepente rumo Este. Num encaro de chãos, dos calçados de calçada aos barreiros do bairro, que voltariam-lhe para casa tão e calvo.  No final do expedoente de costureiro, estava com avançadidade. Ao se avistar pelo espelho, podia enxergar a calvície, podia enxergar a corcunda, podia enxergar as rugas; podia pelo menos enxergar muito bem. Genésio sabia que lhe haviam linchado sob granizo, motivo pelo qual estava bem ensopado, além de ensopapado. Outra vez através das veredades, outras vê ao dirimigir-se, pensageiro.

Ele não reagira, era contra; detestava na violência o inconteste de toda espontaniedade. Revoltava-se para o não adiantado do depoente, de encontro à rotação do tino, em desencontro com justicências... O estio da chuva veio com o estio do dia, ainda noite. Pensava caminhos na escuridão, numa escuridão daquelas que faziam brotar nele várias cabeças. Foi quandonde chegara, não em casa, mas a meio da caminhagem. Genésio penseou: estou habitado de glandes emoções, o que recinto muito. Desencloacara-se da cidade com hêsito, num êxodo de enxurrada. Quatreandando até acolalí donde se afundeava o só fim. Com seguir conseguiu apenas a duras penas covar uma cava, semeando a fofa terra consigo mesmo.

Deitado de lado, jazia inculto na jazida estéril, ajoelhado no próprio peito, iqual a feto. Raiava o outro, doirado, vindouro. Enquanto o morrido, socorrido do nascente melífluo, conjeturava: morrer por morrer mais valia ver o amanhã do sol. Genésio em tão se leveanta de dentro da própria sombra, na qual ainda se escora, e diante de um zenitão acorcorado na desvertical do fundo mais longelínquo, sabe-se há de mirar uma apariçona de umárvore, desfolhada em não mais que dez folhinhas, à contraluzular no que a via no que havia.

 Ficando de pérpendicular, abre Ivete, o canivete de ofício, que o vício da oficina não fez trabalhar a descoser umbigos a cintura alheia quando da precisão; este chovido na enferrujada véspera, o cortante fio estio do tempo de metal afiado a frio; com ele, grava no lombo do torto, desfolhado pé de planta, o nome chamado de seu memorial: “CÚ” é o que ele escreve, letras primeiras. Riscado com sete traços maiúsculos que revelam o vermelhado de dentro de por sob as aparências do pau em vida, consangrado no umbigo. Pensava alto nesse baixo relevo, câmara sempre escura que se desencarnando subia copiosa com seu mais alto repensar. De vez que na copa desse tino apassarinhou-se um pouso penoso de bem-te-vi que, a sismar, triscava o cimo da pensa-mente de Genésio em desatinada perguntação:

Pensas alto, mas mal-te-escuto, por que razão? Se te quis a ti mesmo um bruto a fugir do lume e a te embrenhar na treva analfabeta, por que agora me sai com esta de escrivinhos? Já que não aprendeu uma qualquer conta ou composição, como chega-me assim logo com tal palavrinha, um palavrão? E sem mais, sem mães nem paz, por que irrompe destarte como que parido de besta, parado na bosta, começado pela saída última? Além do que, tua exceção a ratificar todas as regras, quando mete no teu CU traçado um risco a mais, será por que agudo e inclinado o pinto-sete do próprio risco amais?

Responde Genésio: Ave, ave! É que andei, entre aspasmos, a voltar de longe nos sonos, sempre diverso, picado por sonhaduras como que de fogo, de ar de terra, de maravilhentas experianças. E, palavra, as palavras todas é queíme vem ao acasismo do movimentoda mão, na consciência, endireiteando a sinistrada ignorância que se encabrestava em mim. O tempo foi coisa preta, negrócio doido e doído do ido porvir. Eu parecia que a mim mesmo me paria. Foi quando nesse meio de tudo, para serviço de pensear melhor, na pior das coceiras da interna sarna, cobrão dos dentros, quis me fazer a sentar uma ideia, a modo carvalheiro de matutar sem tadinho. E não havendo realismismo de com que sentar um banco, planto um cá nessa casca, para acolhida em logo sob a minha caspa. Nisso é que me firmo, como quando dormido soletrando sonhos da cor dos acordados e, acordos a cor dados, apalavrei-me comigo de que Genésio não somente este-vê aqui, mas só suamente aqui está.

A minha firma-rubrica, venere-a, pus no pau que não serviu de papel, como o tal que se multiplica desde Babel. Corrijo-me defeita que com sete talhos se perfaz um pau, com quarenta e nove se faz uma canoa, então assim inteiro se parte de todo para longe do mal, e do sal se revolta à sonhação do meu gosto, a docicada uma formigando o rosto, a distar disto que bem seteselado erava nas minhas escuressencias de antanho, a pouca elípse. E quando o grande rio foi minha raciocinura, imenso e sem outra mensura que esse imarginário de assentar o poeirão internado no mim e o nominho de tudo, dessas memórias, é decerto CÚ, pois de esperto sonhei desperto com eu mesmo e minha bunda sentardos arvorando a vida do conhecimento e o conhecimento da vida para um e outro aladinho como você levar apolinizando por aí este, o um recado: que mesmo de pé nonada eu estou sentado no firmamento, que o meu CU é CÚ, tem assento.


14 de março de 2013

aminhaversão


eu odeio a poesia!

para tanta alegria,
o meio: é preciso
um sorriso no ou-
vido
(bétula, bálsamo),
consolação; alívio
o vinho generoso,
velho e excelente.

olho no todo pre-
cioso
(de ciúmes, zelo),
como pelo desejo
o quê mais intacto,
mas ainda quente,
se jamais lia o que
après cio e re-seio.

poesia? eu a odeio.



7 de março de 2013

Seres, Sóis e Sinais


Sonho em me aculturar
por um contato estreito
com um amigo primitivo,
porém não consigo achar
o sujeito de estudo vivo.

E entretanto,
infelizmente,
há mais morto
do que vivente
e posso herdar,
na era moderna,
somente a cultura
daquele velho horto
escrita na caverna-lar
que figura em seu canto.

Ir pelo bonito sítio rupestre
repleto de estranhos petróglifos
a céu aberto e parcialmente submerso
em afloramentos rochosos areníticos, graníticos.
Ler em páginas de pedra os sonhos esquecidos,
fotodocumentados, georreferenciados,
uma vez escritos diante do fogo
no escuro antigo do tempo.

“A arte primitiva requer restauro?”
“De origem indígena pré-colonial,
é a forma pré-histórica
de comunicação visual
alheia a nossa era pós-histórica?”
“As linguagens gráfico-simbólicas
da comunidade autora
serão tão hiperbólicas
como uma nova arte promissora?”
Interrogava-se o Saussuressauro.

Na caverna 
nada o-
mito.


14 de fevereiro de 2013

Dentro embora

A sorte, discussão dos historiadores 
(logo ao fundo), dá lugar 
de palavra a este poema. 
Deus, em sonho (rudeza do animal), 
falava pelos cotovelos, de si para si, 
e só este último nada compreendeu. Tão tépido tempo travou. 

Nesse seu instante de vertigem, apanhou a sílabas 
e se achegou a elas, benevolente, 
mas a tremenda resposta (cólera) 
do algum valor filosófico é o que acrescenta com certa pressa: 
foi como se o tivessem rompido, o corpo que se partiu de frio, 
em um mágico alfabeto de fato – castigo eterno para os maus – 
em que ele podia ser habilidoso 
e o que sentiu naquela faquinha 
e o que selvagem tem me usado (oculto seu nome) 
para o que confrontou o interno 
com o dogma, e se ouvirá a voz 
querida deles na fumaça agitada, 
não havia senão o pouco assim, ou nos decifrando. 

O que já se iluminou submetido a mil operações mágicas, 
o que dá para anos de indecisão, procura (não decência). 
Refiro-me aqui à estrita noção – paradoxal: 
a crítica em geral foi seu cinzel. 
Ele considerara cada alternativa, desde as letras 
destinadas a nos castigar diante das suas aspas (seus chifres), 
até certos períodos justificados,
passando pela corrente de saliva a se urdir no que bebo 
para engolir com fé o placebo. 


  

15 de junho de 2012

Transatravés

Sente a tração textual 
este leitor ontológico e mamífero: 
seus olhos de ventania com fome, 
e a pintura, sua irmã, 
diriam estas ideias com o formato das cores; e nós, páginas, 
afirmação própria de escuros sons, 
tatearíamos no tempo outra ficção 
revinculada ao som de nosso nome. 

Dito bem menos grego do que falaria um copo d’água, 
com nenhum outro tema de ficções, 
conceito de dúvida, fúria ou mágoa, 
cada minuciosa cor que não é nada, 
como imortais mudariam de pensamento e de paixões. 

E se a língua em que se exercitava no jogo 
saísse para buscar alguma resposta 
e no erro lambesse os dados a lhes besuntar melhor vício, 
encontraria remédio a humanidade 
ou bem astros por trás de seu rosto 
que sem dúvida questionaria ainda a fundo. 

Recomponha tua figura, 
porque não se referia a conceitos abstratos, 
a chamativa cenografia que outro lê “amor” 
e se deixa iniciar pela casa deserta 
a partir dos labirintos de tabloides, 
mas em começar sua carreira com o sonho, 
órgão não oficial de alguma seita de pedra 
pois nos alimenta a voz do talvez invisível. 

Aí aprendeu o pouco latim de um rito elementar, 
mas algo nele, como era de se esperar, 
estava fora de época: a sua língua era? 

Alta era a tarde, e esta pedra como a obra de todos, 
só fazia ainda indagar sobre Deus, 
ou nem mais quem é nem o que é, 
mas já onde se acha e como evitar, 
se em alguma escadaria de templo, 
se nesse inumerável pó do planeta, 
se em cada própria questão, como “eu sou pergunta”. 

Estávamos nos anos finais de um século prestes a reincidir, 
e, logo depois, imersos na experiência mesma do se repetir. 

Saí em busca de meu crepúsculo 
como serão na recordação os rostos com uma rua, 
esta secreta possessão inocente, de puro músculo, 
se às vezes a tentação de traduzir para verdadeiro 
trai-me em português brasileiro: 
 jamais se possua! 

Conservei o meio natural, 
já que a verdade é que existe o caráter nele, 
obtendo qualquer efeito como de revelação 
e, detrás do indivíduo, ninguém verdadeiro 
senão certo estado da arte 
que tem seu preciso lugar em não sair dele 
ou no nunca aprofundá-lo. 

E o estilo de todos os mestres confirmou a sua suspeita. 

Quiçá não por meio, mas inteiramente maneiras do cantador, 
no caso um de modesto dialeto, 
homens e mulheres tiveram na mão este interlocutor humano 
que invocou (com as máscaras) sua alma, a de ser a descer só 
nesta sua experiência de mente impressa. 

Um rascunho escritor no início é onírico e vaidosamente bruto, 
ao qual terá dado razão se aceitou tal destino 
e, a poder, vazão, 
e só houve nele, ao despertar, os idiomas de sob suas pálpebras, 
inculto ainda, e nem sequer um banto ou tupi, 
o que para nós daria na mesma, 
mas o primitivo não podia estar entre paredes, 
pois a eternidade deste mundo é muito vulgar 
para a complexidade das feras. 

E seus palavrões não sabiam cessar (e de sono eu não comento, 
não para desonra dessa imaginação 
cuja especialidade eram os porquês, de interrogação sua pose), 
e aí renunciou ao como pelos quês, 
e se disse o que dito, o depoimento emitido no outono de 2012. 

Sua orelha está onde houver música, 
essa sentença encantada de demônio, 
vertida e replicada por uma verdade 
que desde sempre esteve subjacente 
às mil falsas senhas com que sonhas, 
e sua noite, uma vez desensurdecida, toca-nos a boca pequena, 
  e a nos beijar a cantilena 
a sua língua entregou-se à prática número dois, 
para a qual não podia saber estar predestinada. 

E, íntima vítima, exagerou gerações, 
já que o passado e o futuro em algo pressentidos 
na divisão da visão levada ao termo, 
induzidos a isto talvez pelo ser todo, 
no início tantos anos multiplicaram até o infinito, 
porque a máquina o fez vir com pretexto inverso 
àquele insuspeito que habita o eleito. 

Certa vez substância terna, nossa, esta voz imanente, carnal, 
enfiou um de seus inúmeros braços na página da minha testa 
podendo significar aqui um monstro, 
e atraiu-me para sentir tal inconsútil 
que sentado áspero, acocorou a obra 
como no ar outro véu de superstição 
 ou menos, uma sombra, 
ou este silencioso livro (ruído negro) origina suas sensações, 
algum fogo e logo certa ideia de dor 
 e calor e luz, e mais luz. 

Parte imortal, iniciou-o este tal não-método no todo-antídoto, 
uma mitologia simplíssima de besta 
que orate fez o primeiro movimento 
desordenar o divã a divagar seu afã 
como escolas abertas da nova idade, 
quando celebraremos o nosso ofício interno, 
aonde poderemos ser um, e levados 
a última potência, 
pois só despertaremos por distração, 
o que aqui se afirmou sem metáfora, que livre depreender-se-ia, 
que isto feria não, 
euforia. 

E não sede mora onde ocupo pouco, causo liquefeito, 
a mão se demora nas cordas e palavras cantam greve 
acompanhando-se à guitarra, com sol e dó das coisas, 
bebida babélica nas molas do salmo ou do impossível 
com que passarinho faz escalas entre nossas pestanas 
pois já não tinha sentido para as repetições do horário 
pois isso excederia a nossa incalculável compreensão, 
o que, previsivelmente, seria tão apenas inacreditável 
e as duas imagem, segundo se sabe, são uma só coisa. 

E, ao contrário, 
   este meu trecho de conversa a oeste 
acontecia durantemente as coisas em outras palavras: 
e já aconteceu, 
  sempre, 
no liso espelho de gravíssimo cenho 
cuja secreta estranheza 
(de menos um realismo, entrevisto onde o procuram) 
de patafísica a nos indicar a perfeita prisão de tempo 
na matéria do copo, pela errada circunstância da hora 
que tomada de um gole, 
abusou de mim, este tu de propósito 
que cumpre suprir ao tom ausente com o tom silente 
da imagem e do som e da ideia que possam ser úteis, 
e não fatuidade, 
quando o rosto olhou-o no assombro 
e duvidou reconhecer, naquela noite, truco do tempo, 
e ainda desde a madrugada seguinte, 
que caberia ensaiar as cores e formas 
do nunca rubricado no meio do peito. 

Como se já fosse uma única extensa metafísica 
na única linha em azul de leve, 
naquela urgência de ter a ideia de tempestades, 
começa a observar que pode a tal noção de nós 
(no século XXI) precipitar outro intervalo certo 
em escala mínima, quieto, exceto de si para dó, 
 ou jogo outonal 
sobre folhas secas e sem saber 
 ao cair com elas 
 que é, no início, 
 morrer de amor. 

E, penetrantemente, 
com o medo em riste, 
olhando-o de frente, 
perguntou ao criador qual era o seu nome, 
e ouviu que apenas criação é o que existe 
e que era hora da criatura estar com fome 
e comeu descrente. 

Isto equivaleria a dizer no máximo 
 (sempre dizer no máximo) 
que quem nos escreve nos deu esta resignação por hexâmetro; 
 mero utensílio a cabeçorra 
que demais amais assim tão viciosa 
  porque nos sabe à música; 
que ela voltou da sala de sem-razão para ser nossa antagonista 
  em seu alcance de Occam; 
que a escrita de contrários não fura 
o que transverberado está; 
e que isto, no fim, a náusea ardente de rever o que escrevemos, 
só está em quem é escrito.