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Poeta e ficcionista paulistano nascido em 1979, é autor do Livro Ruído (Eucleia Editora, 2011), publicado em Portugal, e das Ficções paralelas e Visões para lê-las, iluminadas por Yuli Yamagata. Traduziu Natureza, de Ralph Waldo Emerson, e Caminhada, de Henry David Thoreau (Dracaena, 2010). Seus blogues Não Fique São e Transatravés, que permanecem no ar, somam mais de 130 mil visitas.

Estudou Publicidade, História e Jornalismo. Foi operador de atendimento, agente de leitura e apresentador de televisão; agora atua como factótum de texto: redator, revisor, tradutor e consultor editorial. Mora em Sorocaba-SP, onde trabalha em casa, na Felina Oficina, afagando Lira, sua gata, e produzindo os espetáculos e vídeos de dança contemporânea de Mimi Naoi, sua esposa, com quem também mantém o projeto Fôlego, com performances nas quais recita poesia para ela dançar. Em seu perfil e página no Facebook, pratica o colunismo antissocial e publica seus textos e traduções.

Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens, onde é colaborador, e também nas revistas CronópiosTriploV, Germina7faces, BrasilianaDiversos Afins, Ellenismos, Raimundo, Macondo, Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias, e nas antologias AsfaltoVinagre e Poema de Mil Faces

TRANSATRAVESSADOS

25 de janeiro de 2013

Precisar Impossível



Ele acordou muito cedo naquela promissora manhã de segunda-feira. Um dia especial. Tomou banho e se barbeou bem, penteou os cabelos e escovou os dentes. Vestiu seu melhor terno, bem combinado com a camisa, o cinto, a gravata e os sapatos, bem como com as abotoaduras. Tudo impecável, indefectível; estava um homem muitíssimo bem apresentável, aparentando mesmo muita credibilidade. Devia-se admitir. Fez seu desjejum com ansiedade e então partiu.

Confiante e otimista, dirigiu-se para o centro da cidade com um único e bem definido objetivo. Iria atrás de uma colocação no mercado, digna de seu conhecimento e preparo e, por que não dizer também, merecimento. Quando viu os homens vestindo placas de anúncio de empregos conhecidos como cartazistas, parou para olhar; tinha mesmo chegado um pouco adiantado e não custava nada matar assim seu tempo. Passeou por entre os anúncios considerando as mais diversas oportunidades de se conseguir vagas; deteve sua atenção nos detalhes das exigências e dos pré-requisitos, dos salários e dos benefícios oferecidos, como outros candidatos. As palavras dos anúncios lhe entravam pelos olhos como se mágicas, douradas em seu reluzir de solução definitiva para algum resquício qualquer de insegurança que ainda pudesse ter. Quando parou em frente, de repente, daquela vaga. Era exatamente a melhor opção possível se tudo mais desse errado, e seria aquele o seu plano B perfeito. O que fez, então, foi sacar do bolso interno do blazer uma caneta, anotando minuciosamente os dados da vaga e de onde poderia muito bem e a contento encontrá-la.

Havendo chegado à hora, encaminhou-se diretamente para a entrada do edifício muito alto onde já estava se formando uma fila, na qual tomou seu lugar. Após ter aguardado pacientemente tantos anos ao longo de sua vida, preparando-se para este dia, estudando e incrementando sua experiência, jamais se surpreenderia com algo desse tipo, nem isso tampouco o faria desistir daquilo que já tinha programado, tendo previamente pesquisado quais seriam os itens necessários para sua formação a constar devidamente em seu extenso e bem elaborado currículo. Então, depois de esperar mais de uma hora, finalmente pode adentrar o edifício. Identificou-se à portaria, passando pela recepção, onde se informou, reconfirmando as informações que pesquisara previamente. Ratificou que, para visitar todos os andares, repletos de empresas agenciadoras de mão de obra, o melhor seria subir de elevador até o último piso e descer tudo de escada. Educadamente, ainda cedeu sua vez para umas senhoras, antes de entrar no elevador que o faria subir ao topo da construção. Enquanto subia, repassava mentalmente as palavras que diria quando fosse amiúde indagado sobre este ou aquele item, uma ou outra passagem de sua formação; a explicação sobre onde exatamente residia ou mesmo sobre sua pretensão salarial. Após alguns segundos, chegou ao seu destino. Aproximando-se impavidamente, então, do balcão da recepcionista, sem quaisquer delongas e com o seu bom sorriso cortêz, atacou:

- Bom dia! Eu gostaria de me candidatar a uma vaga de presidente de multinacional.

A mocinha, a princípio, ficou atônita. Outros candidatos na sala de espera olharam. Logo, a atendente, disfarçando um sorriso, pediu desculpas, dizendo ter achado que não entendeu muito bem o que disse o candidato e solicitando que ele não se incomodasse em repetir, por favor, a que veio. Sem se sentir contrariado, mas sem entender o que ela não havia entendido de sua boa pronúncia, prova de destreza na dicção e fluência verbal, pôs-se a repetir, em idêntico tom, as mesmas palavras. Antes que concluísse a frase, estalou um burburinho geral que rebentou em estrepitosa gargalhada, a qual também sucumbiu a normalmente tão comedida moça da recepção, numa sessão de risos gritados, uivados e cheios de interjeições zombeteiras que rompeu de forma inédita o ambiente de seriedade e profissionalismo predominantes ali ao longo dos anos.

Ele, um pouco como se se desse conta do absurdo da situação, mas mais pela algazarra em si do que por seus motivos, se empertigou, retirando de sobre o balcão o seu currículo, resignadamente e com alguma brusquidão, dizendo ainda um “muito obrigado” um tanto irônico, para se retirar em seguida, não sem ainda escutar ecoar o retumbar do riso de toda a audiência sem compostura alguma atrás de si. Procurou não dar muita vasão aqueles ânimos tão desconcertantes.

Seguiu seu caminho para a próxima agência, logo em frente, onde as pessoas chegaram a se assustar com tamanho ruído vindo da outra porta, curiosas por saberem de que se tratava, mas ainda empedernidos em manter a seriedade adequada a tais ambientes, seus empregos e vidas futuras dependendo de suas posturas. Mas não demorou para que, pouco após a entrada do próximo candidato, descobrissem os motivos... ou, mais precisamente, para que conhecessem pessoalmente o motivo. E da-lhe nova saraivada de risos. Dessa vez, sequer foi necessário que ele repetisse as palavras. E como que ampliado pelo suspense após as primeiras gargalhadas na outra sala, o estampido dessa segunda sessão pode ser ainda maior, com acréscimo de pantominas e arremedos, mãos nas testas e abdômes, além dos vários pares de pés batendo no piso, que chegava a tremer.

Na agência do andar de baixo, já se haviam igualmente dado conta de que algo infinitamente curioso se passava, e, quando se aproximou o candidato seguinte... riso frouxo e gargalhadas debochadas encheram o ar com tal ruído que já se podia pensar estarem todos não apenas a assistir a uma hilária comédia, mas a serem cruelmente torturados com as mais severas cócegas. Relinchavam, grasnavam, rugiam, zurravam. Era assustadora a forma como já se entregavam às risadas de forma tão livre e exagerada, ebriamente; tanto que ele, muito rápido, abandonou o recinto, quase mesmo como se estivesse fugindo, mas não. Um pouco ensimesmado, mas ainda imperturbável.

Assim, cada vez com maior alvoroço, seguiu-se a sua descida de agência em agência, anunciando sua candidatura à vaga de bobo, ridículo, louco, ou, apenas, como ele bem dizia, presidente de multinacional. Repetiu-se tudo com mais e mais intensidade a cada vez, a cada nova entrada num e noutro canto pelo qual passava, de todos arrancando até o último recôndito ar gargalhante que era iminente liberar assim a plenos pulmões.

A rotina do prédio, a essa altura, já havia sido completamente perturbada pelo fenômeno. Começava-se a parar todas as atividades de praxe do cotidiano de trabalho das diversas empresas e da própria administração predial. O pessoal da recepção e da faxina, os seguranças, a turma da cozinha e de todas as agências já visitadas se aglomerava na entrada da próxima, a esperar outro bis de tão divertido e inusitado espetáculo de bizarrice e grotesco, exponencialmente crescentes. Pessoas dos prédios vizinhos e mesmo gente que passava na rua, aparentemente sem nada a ver com a coisa, assomava. Notava-se um fluxo de pessoas muito maior do que o que comportavam escadas e elevadores, acometendo as vias de acesso e circulação do edifício, apenas para vê-lo.

Quando chegou ao primeiro andar, encaminhando-se para a última agência, a expectativa era não apenas a de que após aquilo o mundo poderia acabar, mas que de fato acabaria, numa felicidade nunca antes imaginada em tempos tão apocalípticos. Mas o que de fato aconteceu foi mais surpreendente: não algo ainda muito mais engraçado, nem muito menos; foi algo diverso, surpreendente e talvez decepcionante, como se poderia pensar. Em verdade, passou-se algo insondável, intrigante e até mesmo incomensurável. Simplesmente ele se aproximou do balcão da recepção com a mesma expressão e atitude de antes, desta vez com o último currículo que faltava entregar em mãos, retirou do bolso uma anotação e, diante dos olhares pasmos e embasbacados da turba, leu-o, para em seguida dizer:

- Bom dia! Eu gostaria de me candidatar a uma vaga de office-boy.

Apenas um Nada enorme podia ser lido nos olhares daqueles que, esperando por outra coisa, estavam ali ouvindo aquilo que ele quase sobrenaturalmente acabara de dizer. A recepcionista foi a primeira, após um instante catatônica, a respirar. Ela então piscou, respirou novamente, mais fundo, e olhou seus papéis no balcão; observando atentamente o currículo do candidato. Disse que sim, que eles haviam mesmo anunciado, assim e assim, tal vaga, e que ele poderia normalmente e muito bem se candidatar a ela.

Então, passando por entre as pessoas que se amontoavam com alguma dificuldade, ele se dirigiu a sala de espera onde, imperturbável, pôs-se a aguardar ser chamado para a entrevista, ansioso.