TRANSATRAVESSADOS

Mostrando postagens com marcador imagens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador imagens. Mostrar todas as postagens

6 de setembro de 2013

Os Gênios dos Corpos

Cercam-te meus olhos: 
dupla são de violadores
De tua sombra espreito: 
nosso intervalo é casto
Escondem-se escolhos: 
assim são os amadores
Enrosca-te o meu peito: 
é negra rede de arrasto

Acaricia a minha cabeça: 
não tenho bolas de cristal
Nos cabelos há segredos: 
puxa pois não me zango
Falo o que logo endureça: 
lubrificado escuto o canal
Nós chupamos os dedos: 
igual a ossinhos de frango

Direciona minhas cochas: 
corcéis de tua carruagem
Guiam-te os meus braços: 
trilhos para a tua viagem
Beijam-se as bocas roxas: 
completam-se os espaços

Tocam-se nossos genitais: 
virtuoso gemer de oboés
Incorporam-se dois sexos: 
 fazem-se amor possessos
Lâmpadas mágicas os pés: 
que sempre desejam mais. 




11 de julho de 2013

parabolae

lagos de sentido e alcatrão, 
saídas de falsas fechaduras, 
nódoa, poças de escuridão, 
tipos de arcaicas máquinas, 
cabeças com chifres, hastes, 
celibatos de linhas impuras, 
manchas de vácuo ou nada, 
oposto essencial, contrastes, 
limiares para furar páginas, 
arca anárquica de ateísmos, 
monólito ao todo, em cada, 
as palavras são vis abismos 



20 de junho de 2013

No exame das páginas, ler meus olhos a fundo



Sobre meu nada diuturno, eis as pátinas, assumo:
lendo todo o tempo, fumo muito e pouco durmo,
sem saber se há isto que na vista aja ou se o finjo,
o que raja de vermelho o branco dos meus olhos
tal como tinjo de vermelho o branco das páginas:
ou naturalmente rajada ou artificialmente tingida,
seja em franco espelho, seja sob vernizes e óleos,
não é como leio a vida, mas como faz por ser lida. 



30 de maio de 2013

Buster Keaton

cara de pedra 
louco acrobata 
intrépido poeta 
quem te ampara? 
belo saltimbanco 
em preto e branco 
por que te arriscas 
às quedas e faíscas? 
talvez por travessura 
ou porventura mudez 
jamais saias do ângulo 
se não estás sonâmbulo! 
porque tu sempre corres 
veloz para a imensa ação 
e rio e choro e não morres 
nem mesmo contra canhão! 
e nenhuma vez ris ou choras 
de ódio ou de amor no cinema 
diante dos vis ou se te enamoras 
como se já projetasses este poema 



9 de maio de 2013

azul Gitanes

quando os dois lados da minha vela se encontram e nada vejo 
caio em mim pois de repente um compacto chão acontece 
e a água – reflexo que desliza – vem salvar minha vida 
alçando-me ao ar no qual a menor substância pesa 

leve este meu ser transmutado em fumo 
e voo e voo e voo e voo e voo e 
num céu de azul Gitanes 
me vou sem rumo 

sem 
juízo 
final 



3 de maio de 2013

fresta

esta noite 
eu te amo 
como luz 
o artifício 
na cidade 
pensando 
o sentido 
profundo 
e radiante 
que nasce 
no insano 
e sensível 
horizonte 
sem muro 
e no quão 
logo além 
no futuro 
é o nosso 
alvorecer 
verosímil 


28 de março de 2013

Círculos de Confusão


Para obter o ângulo certo
ao procurar o dia perfeito
era preciso olhar de perto
as distâncias que espreito?

Haverei de ver brilho tão alheio
ali em baixo quanto lá em cima?
Caberá aqui em mim se no meio
é tão menos luz do que enzima?

Onde estarei mais quente
se dispenso qualquer dica
que me faça ver de frente
a solidão que me duplica?



7 de março de 2013

Seres, Sóis e Sinais


Sonho em me aculturar
por um contato estreito
com um amigo primitivo,
porém não consigo achar
o sujeito de estudo vivo.

E entretanto,
infelizmente,
há mais morto
do que vivente
e posso herdar,
na era moderna,
somente a cultura
daquele velho horto
escrita na caverna-lar
que figura em seu canto.

Ir pelo bonito sítio rupestre
repleto de estranhos petróglifos
a céu aberto e parcialmente submerso
em afloramentos rochosos areníticos, graníticos.
Ler em páginas de pedra os sonhos esquecidos,
fotodocumentados, georreferenciados,
uma vez escritos diante do fogo
no escuro antigo do tempo.

“A arte primitiva requer restauro?”
“De origem indígena pré-colonial,
é a forma pré-histórica
de comunicação visual
alheia a nossa era pós-histórica?”
“As linguagens gráfico-simbólicas
da comunidade autora
serão tão hiperbólicas
como uma nova arte promissora?”
Interrogava-se o Saussuressauro.

Na caverna 
nada o-
mito.


8 de novembro de 2012

Escher




como representar o espaço que nasce tridimensional
em um plano bidimensional como é a folha de papel
soube lá um Sr. Maurits Cornelis e não há outro igual
que fez a vida na arte do traço desconhecido de babel

obra que tende a representar construções impossíveis
verossimilhança do inteligível que condensa ou derrete
com a pena que assume realidades apenas presumíveis
forma como uma figura se entrelaça na outra e se repete

novas regras da perspectiva em distorcidas representações
de alto a baixo uma reta nos imerge na vertigem da altitude
de imagens delirantes pelos efeitos de óptica e suas ilusões
de norte a sul já se delineia aqui e distante uma longitude
e mundos geométricos entrecruzados de loucas projeções
de leste a oeste eis que esboça-se equidistante uma latitude

assim ele explora o limite e o infinito por aproximação
sonhos recorrentes em miniatura e colossais paisagens
reciclam-se o côncavo e o convexo nessa contemplaçao
mundo de reflexos esféricos brilhando como miragens

sendo fonte de qualidade técnica e estética descomunal
com régua e compasso ele faz da imagem uma marionete
um meio de caminho entre a pedra de toque e a filosofal
em diversos níveis nos quais o nosso olhar se intromete

o preenchimento regular do plano nos mosaicos e padrões
recompatibiliza tudo pela extrema diferença ou similitude
de corpos matemáticos em seus estudos e compenetrações
as inesperadas embora constantes metamorfoses a que alude
nos olhares vertiginosos de todos os ângulos das construções
com improváveis prestidigitações com que a página nos ilude

agravam-se simetrias imbricadas em suas gravuras
nos contrastes peculiares e meios-tons da percepção
perspectivas delirantes de litografias e xilogravuras
em paradoxos visuais com que desenhará distorção

assim nossos olhos desenham estas e outras viagens
que cria o Sr. Maurits Cornelis por obra de um traço
e une os versos da imaginação em pictóricas imagens
um indivíduo em múltiplos e o todo em um só pedaço

16 de outubro de 2012

malversado



envergo palavrão e o pinto torto em telinhas certas
para inépicas minas musas cuja sede delira a fresco
quando as curradas imagos hermeticamente abertas
usam me metafimosear a cada vez mais escheresco

e todos os cantos do cisne insigne que ouvi lascivos
estavam tão mal olheados nessas molduras d’oblívio
que quando compro meto-me a tingir seus negativos
desde cada ponto que se dê forma ao cruzar o trívio

e se me sem sur harém por pareser cer autocríptico
saibam que o verídico literalmente porque li ter ato
em cada peça cá representada pois o friso klímtico

quando descoagulo o concreto em borrão abstrato
e tanto posso arriscar o que surre ao já magríttico
quanto obrar o ruído inverso que desfaz o soneto