TRANSATRAVESSADOS

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25 de julho de 2013

Um ano de diferença


Aos cinco anos de idade, por haver nascido em dezembro, 
meus pais tiveram a opção de me colocar na escola, 
mas preferiram me deixar mais um ano livre. 

Sempre fui o mais velho entre meus pares, 
e, apenas por tal razão, tornei-me hoje um idiota, 
já que cresci julgando que todos os outros é que o eram. 

Tivessem meus pais me matriculado um ano antes, 
teria crescido a julgar que o idiota era eu, 
e talvez pudesse estar enganado. 



8 de fevereiro de 2013

estrelinha



esquecer deus*, essa Coisa
tão sem notícias
desde a nenhuma aparição
(e fazer Fogo, esse dogma
sem outra obrigação
a não ser transformar tudo
que não é à prova dele).
fundar religiões da rua
segundo terceiros,
e atravessar ainda outras tábuas da culpa
com rabiscos de sesta
com pouco ou mesmo nada de inocência
com cautela para não, e para não apenas.
estar como a lua que já se insinua de dia
(matar a fome, matar a fome
– a nossa filha sempre jovem
e que sempre volta –
diante da porta da velha era,
diante da era da porta velha);
e odiar voar de avião ou de imaginação,
mas amar ser pássaro que põe pássaros.
ser malcriado, e sobretudo,
jamais repetir isto que sou, por vaidade.


* de fato, 
só sei ser 
dessa excelência de ignorância, creio eu; o que cria,
substancialmente cambiante para os vossos gostos,
um vaivém de hábito e vicissitudes, conforme sou informado.



 

1 de fevereiro de 2013

Três Gatos

Gato e Rato 

Rato na terra ao gato 
Que tem boa vontade 
Que usa bem o olfato 
Rumo a sua saciedade 

Visa além do que vê 
Ao cobiçoso enxergar 
Ao fugitivo que prevê 
Vir a ser felino paladar 

Que morreria de leptospirose 
Aquele gato faminto não sabia 
Aquele rato só sabe da psicose 
Que sente morrendo de gatofobia 

Gato e Peixe 

O peixinho na água do aquário 
Sem saber que era visto de fato 
Todo o perigo seria imaginário 
Não o visse ambicioso o gato 

O felino que desdenha do banho 
Mas arrisca-se por uma boa presa 
Um meio vale se o fim é o ganho 
Só lava a garra que usará à mesa 

No chão a seus pés o peixe engatinha 
Agonizando sem ar por ter sido fisgado 
Um dos dois vai virar só uma espinha 
Um dos dois vai se revirar engasgado 

Gato e Pássaro 

Um passarinho no ar planava 
Sonhava baixo em seu rasante 
O pensamento do gato se alçava 
A como ficar da comida diante 

Subiu o felino ao galho mais alto 
Em silêncio escondido na árvore 
Pondo-se alerta para o maior salto 
Ao apanhar a ave que bem a devore 

No pulo o gato recheia o que estava vazio 
Sem discussão está no papo o filé 
Engaiolada no gato ela dá seu último pio 
Sem asas nem sempre se cai de pé 


24 de setembro de 2012

happening



no centenário de John Cage
está imensa a concentração
de loucos tão concentrados
e sem alarme. mas
várias microfonias
como se quaisquer escolas de sabedorias
                                              [aleatórias]
algo combinatórias
tivessem a mínima chance.
e parece utilíssima
a-
    tenção
se se permite tocar
o silêncio de ouro.
e olho e passo
e sem espaço pelos cantos
movem-me. dentrembora
para onde o som vier emita esta ruidosa escrita
a celebrar a cerimônia
a univer a pluriver
cidade: acontecimento
que mesmo quando
sem (100)
tem (ária)
this first class cage
é uma jaula inaugural
para vós gutural. trote
ou até melhor: galope
a cavá-lo. descremá-lo
para redesfragmentá-lo.