TRANSATRAVESSADOS

18 de abril de 2013

Trabalhos Noturnos


Traga pedra a madrugada inteira!
É uma banguela, é uma marginal,
e fica craque como caminhoneira:
a última saída é pela preferencial.

Sombra e tara, notícia imediata?
Finge que me ama, atuar é atual.
A cara na tela, na cama é barata:
um programa por um comercial.

Ele é poeta ou padeiro,
suponho. Nada matinal,
o amanhecer o aquieta.
Vai dormir o dia inteiro:
é um sonho por um real. 


11 de abril de 2013

Fundamentadamente


Neutra, a Ideia nasce.
Nós, homens, depois,
fazêmo-la inflamada.
É o fanatismo do útil
que impõe tal ilusão.

Pensar claro, límpido,
freia a tendência a fé,
o apetite pelo poder,
a obsessão por Deus.

O riso contrapontear
a lucidez implacável,
a elegância lacônica,
é o Nada mais ideal.

E nobilíssimos vícios,
a dúvida, a preguiça,
são a saída pelo Mal
contra os diligentes.
Certeza: tara capital.



4 de abril de 2013

Emilly


A minha mulher tem dois éles
e se desloca elástica em mim
                                              e voa para dentro do próprio sangue
                                                                por fora do corpo e de si
                                                                             quando me ama
                 e dança.
Jovem virgem que lê e dança a mais bela
minha namoramada mulher
quer me desposar
                            quer-me na primavera.
Quero-lhe o hímen, a mão, o sim e o sim.
Quero-a então para sempre só para mim.
Tira-me do sério (ó Destino)
e para dançar fora dos livros. E ela lê e me lê com éles nos óculos-
                                                              ósculos tranquilométricos
e me ama. Amo-a. Ela tem asas nos olhos e nos éles do meu amor 
sem calcinha. Ela é só minha.
Bela musa virgem se isso é possível não é possível depois de mim:
ela a quem sempre amar à primeira vista,
sangrada pelo poeta-plateia,
                                              volta ao corpo a escrever nua no ar
                                              o poema que com dois éles me cala
                                              ilegível no infalível fim que se infla
                                             com quem é o escolhido a deflorá-la.
Ela a mulher artista a melhor conquista a única que desejo cantar
                                               pois este fauno alcançou sua ninfa.



28 de março de 2013

Círculos de Confusão


Para obter o ângulo certo
ao procurar o dia perfeito
era preciso olhar de perto
as distâncias que espreito?

Haverei de ver brilho tão alheio
ali em baixo quanto lá em cima?
Caberá aqui em mim se no meio
é tão menos luz do que enzima?

Onde estarei mais quente
se dispenso qualquer dica
que me faça ver de frente
a solidão que me duplica?



21 de março de 2013

Poesia


Será ela aquela, a que Eu cria? Era já bela criada como acre dito?
Resigno-me ao signo ou resigno-me ao nome: esse sonho enorme.

Desta vez posso não ter me lembrado de tudo antes de recomeçar.
Tudo está perdido, e desta vez para todo o sempre. Achais o quê?

Nada nos espíritos a menos se a mais e estáveis tão alto que dê pé.
Transatravesso o Ser, já que eu, humano, desci para si, o consigo.

Faço tudo o que posso, mas fazer o que não posso é bem melhor:
                                                                é passagem só de volta,
                                                                     aí entro em colapso
                                                                              e lá me sento.
                                                                                     Sente-se.
Minha barba hoje cresceu um ano. Serão cordas de viola. É vossa.

Havia um buraco na caixa e nesse buraco uma caixa sem buracos.
Ali dentro dessa caixa haverá outras caixas ou apenas um buraco?

Escapo desse pensamento para ir pensar o cérebro em meu crânio.
                                                                                      Nascente,
                                                                                lá dá cócegas
                                                                         em termos cãibras
                                                                   no sentido: rio imenso,
pois congraça até me desaguar na ideia insensata, oceânica mente.

Viram coisas? Eu sim: visões de época, dadas vezes. Verão o quê.
Viremos um pouco de lado esse longe, com amor e sem bagagem.

A minha vida imita a arte sem razão de eu devolver esta reflexão.
O espelho me parte e sangra por inteiro. Para melhor te imaginar.

Transatravesso o Ser, já que eu, humano, desci para si, o consigo.
Nada de novo, estilo borboleta. Sentir é pensar com o corpo todo.



14 de março de 2013

aminhaversão


eu odeio a poesia!

para tanta alegria,
o meio: é preciso
um sorriso no ou-
vido
(bétula, bálsamo),
consolação; alívio
o vinho generoso,
velho e excelente.

olho no todo pre-
cioso
(de ciúmes, zelo),
como pelo desejo
o quê mais intacto,
mas ainda quente,
se jamais lia o que
après cio e re-seio.

poesia? eu a odeio.



7 de março de 2013

Seres, Sóis e Sinais


Sonho em me aculturar
por um contato estreito
com um amigo primitivo,
porém não consigo achar
o sujeito de estudo vivo.

E entretanto,
infelizmente,
há mais morto
do que vivente
e posso herdar,
na era moderna,
somente a cultura
daquele velho horto
escrita na caverna-lar
que figura em seu canto.

Ir pelo bonito sítio rupestre
repleto de estranhos petróglifos
a céu aberto e parcialmente submerso
em afloramentos rochosos areníticos, graníticos.
Ler em páginas de pedra os sonhos esquecidos,
fotodocumentados, georreferenciados,
uma vez escritos diante do fogo
no escuro antigo do tempo.

“A arte primitiva requer restauro?”
“De origem indígena pré-colonial,
é a forma pré-histórica
de comunicação visual
alheia a nossa era pós-histórica?”
“As linguagens gráfico-simbólicas
da comunidade autora
serão tão hiperbólicas
como uma nova arte promissora?”
Interrogava-se o Saussuressauro.

Na caverna 
nada o-
mito.


28 de fevereiro de 2013

As linhas


Se você acha que eu nasci ontem, está certo, hoje disse, 
e, pelas minhas mãos, não morrerei amanhã, de velhice.
Lê-se apenas um conselho estilístico para quem escreve: 
                                                                          seja breve.




21 de fevereiro de 2013

dormir, sonhar, despertar



dormir
não sem qualquer resistência
a tão sutil fração de suicídio
e, por
desejar profundo,
atingir
a superfície de si

sonhar
como quem já é 
para estar sem fundamento
e, em não caber,
deixar-se andar livremente
para mais saber
quanto mais se é sonhado

despertar
sem decapitar o sonho
condenado ao dia
por ter drogado a noite
e, ao longo dessa
debilíssima vigília,
continuar despertando