TRANSATRAVESSADOS

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20 de setembro de 2013

desistencialismo

mal começo, logo desisto 
costumo ser dissidente 
ou apenas não persisto 
e me abstenho, ausente 

eu não me importo 
não quero nem saber 
pois não o suporto 
mando logo se foder 

nada condescendi 
falta não me fará 
não estou nem aí 
deixo tudo para lá 

eu fujo da arena 
estou caindo fora 
saio agora de cena 
estou indo embora 

nada disso não mereço 
canso fácil demais 
simplesmente esqueço 
mostro os genitais 

eu não aguento 
e me desassocio 
ou me aposento 
ou me distancio 

basta abrir mão 
jamais me iludo 
se é tudo em vão 
desisto de tudo 

sou um desertor 
sempre me excluo 
e para mais me opor 
não continuo 



12 de setembro de 2013

o durante é enquanto (a coisa dura)

espanca-me depois que esteja preso 
desterra-me depois que esteja perto 
condena-me depois que esteja ileso 
invade-me depois que esteja aberto 

aborta-me antes que seja inválido 
esquece-me antes que seja branco 
esteriliza-me antes que seja libido 
extirpa-me antes que seja cancro 

estupra-me depois que esteja ileso 
engana-me depois que esteja certo 
apaga-me depois que esteja aceso 
abole-me depois que esteja liberto 

caduque-me antes que seja proibido 
restringe-me antes que seja amplo 
intoxica-me antes que seja sentido 
censura-me antes que seja franco 

29 de novembro de 2012

O Barco Sóbrio




Como subo impassível pelos rios na piracema,
Obediente ao sentido dessa direção aborrecida;
Preocupa-me demasiado minha carga extrema.

Pelos rios nunca segui, ancorado nessa tal vida,
E nem uma só vez me banhei naquele Poema
Do Mar, por abstemia mais forte que a bebida.

E se desejo alguma água da Terra, é a selvagem,
Cálida e clara vaga, sob a mais excitada aurora,
Na qual arroja um aventureiro cheio de coragem
O seu barco intrépido como um tubarão devora.

Mas, deveras, jamais chorei! As albas são penosas.
Toda lua me é muralha e todo sol uma carceragem;
O grave fastio me secou com sobriedades tediosas.
Que minha quilha empene! Que eu jaza à margem! 


14 de agosto de 2012

Quilombonírico

Eu tenho o sonho impossível de fundar um quilombo. 

A gente poderia se encastelar em algum eremitério montanhoso 
no qual o dinheiro seria apenas tiras de papel e botões de metal, 
sem qualquer outro valor além do que deveria ter essa arte ruim 
que produz em série todos esses números redondos e caras feias. 

Queria fugir agora para lá, partir desta infeliz cidade. 
Deixar RG, CPF, saudade,
inúteis ao desembarcar naquela nova liberdade que se descobrirá. 

Eu queria construir uma casa na mata, uma casamata, 
anarcoindividualista primitiva e agnosticista modelar, 
onde estabeleceria esta minha comunidade incomum, 
um búnquer antissistema ou blocausse anticivilização. 

Este lar sem pai ou patrão, 
sem endereço para a pizza 
ou para a fatura do cartão. 

Poucos humanos seriam bem-vindos neste meu abrigo anti-Deus, 
ilha de excelência maldita, embriagada e supermusical. 
Onde ninguém nunca passaria fome, onde todo mundo se come. 
Pequeníssima nação, seríamos um paisinho à paisana, pluriforme, 
em forma de lacônica colônia ou mesmo de misantropa colmeia. 
Seria um asilo adolescente, Eldorado do sobrevivente. 
Uma Cocanha de continente ou Pasárgada emergente. 

Nesta fortaleza dos fracos, 
sem qualquer comunicação com o restante do mundo, 
não seríamos talvez menos tristes, mas seríamos menos os tristes. 
Seria uma sociedade ideal, de aldeões e aldeãs e tesões libertários. 
Seria uma sociedade sem alternativa a não ser estar lá, 
contra todo Estado sólido, 
sendo poucos para poucos, lindos e líquidos e loucos, 
a cantar nosso hino gozoso, tão estúpido e contagioso. 

Um todo à parte, esta tal republiqueta de artistas seria de todos, 
apartidários e expatriados e patéticos, jamais apáticos. 
Autoembargados, teríamos ali o nosso lugar de susto sustentável, 
uma democracia direta, dileta e sem dieta ou regime. 

Nossa população faria saraus como jamais houve, como imagino, 
povoando nosso território com muita lira e punheta, 
uma ditadura do palavreado 
gigante pela própria malícia. Não tem arame farpado. 

Quase um outro planeta, sem guilhotina ou império ultramarino. 
Sem ter exército ou polícia, estaríamos a sós em nossa autarquia. 
E nossa linha de direito seria mais torta do que nós. 
Cumprimentar-nos-íamos com a mão esquerda, só por telepatia. 

Aqui são quase todos perfeitos, os imperfeitos ainda mais sãos. 
Uma contradição anímica a favor da adição química, 
esta nossa turminha tão culta plantaria de tudo, o que é natural, 
sintetizando o que fosse necessário, dialética mente, na verdade, 
já que todos seríamos alquimistas de nossas vidas experimentais, 
recém-regressadas à Era de Ouro de neo-neandertais. 

Refúgio de engenho livre, 
todo sonho de quilombo é nossa usina do impossível. 
Esta utopia seria o meio de nos libertar do tempo da escravidão 
e da escravidão do Tempo, império do mero factível, 
e então o fim da História. 

Esta utopia, mesmo minúscula, poderia ser nômade, festa móvel, 
para que nela o sol jamais chegasse a nascer, nem a balada acabar. 
Esta utopia não teria muros ou fronteiras para dar uma bandeira 
de onde nos encontramos, pois nos acusariam de qualquer terror. 
Esta utopia teria lugar em qualquer lugar onde nós estivéssemos, 
mesmo longe uns dos outros, ou até sem que nos conhecêssemos, 
como se nossas liberdades se encontrassem neste tal quilombo 
que sonhamos em comum. 

Aqui se mora de frente para o mar, que fica de frente para o bar. 
Um oceano ciano com camarões de comer e fumar. 
Aqui tem campos de pomar, com idílicos pés de rede e preguiça, 
e edênicas árvores de vida e de conhecimento, do bem e do mal. 
Tem outro pau que dá sozinho pecado madurinho o ano inteiro. 
Aqui ainda não inventaram o trabalho ou a tortura, 
apesar desses palavrões constarem como sinônimos. 

Ainda não somos imortais, 
mas aqui só precisamos comer ou dormir quando temos vontade; 
aqui as pessoas são de uma raça só, humana, de todos os gêneros; 
aqui a bomba já explodiu, mas ninguém nem ouviu. 

Vem para a minha matutopia ilegível, vem ser ímpio, virar índio. 
Quilombonírico, um escombro lírico. Aqui não se paga o IPTU. 

Vem ver o meu reino invisível, onde todo mundo é rei e está nu.