TRANSATRAVESSADOS

1 de outubro de 2012

Um espaço de cada vez ou uma década a fazer este poema



Intervalo vazio. É ataraxia
entre dois clichês,
hiato entre tédios,
menos que espaço: vírgula.

E mistério em plena deriva: zona branca
posterior à calmaria que sucede a ação,
anterior à angústia que antecede a ação.

Ato entre o lastro e o impulso,
modo do gesto que é quase efeito
no momento crucial das peripécias, avulso,
ou movimento essencial entre duas inércias do peito.

Sucessões de cessações das sensações
aptas a jazer entre um não e o não ser,
é espesso espaço, portanto. Existe ali.

Indisposição sutil para o cada vez menos vago, logo à frente,
para o pouco indulgente, para o que há devagar tão abstrato.
Lassidão com que lá se dão o algo, o impreciso e o reticente.
Interstício entre sonho e sonho, é longa pausa para o não-ato
ou dolce far niente.

Primeiro conceito de lazer do mundo, a própria Poesia a apoia.
Superfície que ascende preocupada em fazer crescer seu fundo,
a preguiça sequer boia.
Nada a fazer.



24 de setembro de 2012

happening



no centenário de John Cage
está imensa a concentração
de loucos tão concentrados
e sem alarme. mas
várias microfonias
como se quaisquer escolas de sabedorias
                                              [aleatórias]
algo combinatórias
tivessem a mínima chance.
e parece utilíssima
a-
    tenção
se se permite tocar
o silêncio de ouro.
e olho e passo
e sem espaço pelos cantos
movem-me. dentrembora
para onde o som vier emita esta ruidosa escrita
a celebrar a cerimônia
a univer a pluriver
cidade: acontecimento
que mesmo quando
sem (100)
tem (ária)
this first class cage
é uma jaula inaugural
para vós gutural. trote
ou até melhor: galope
a cavá-lo. descremá-lo
para redesfragmentá-lo.


18 de setembro de 2012

E aqui, Pedro?



Há pedras para tudo. Há pedras para a pedrada,
para o ludo, o castelo, para a planta.
Concreção, cálculo, droga e granizo.
Pedra que cinzelo e ninguém levanta.
Reificação e vínculo ou broca e aviso
que quieto marreta o poeta concreto. Paraonde?
Gema rara, preciosa. Signo, suponho.
Pedra montanhosa ou para o tropeço.
Pedra de açoite que fidedigno sonho: rocha chã,
desabrocha meios e mães do avesso.
Como seios de noite, pães de manhã.
Pedra do mundo! Ó pedra de pedras,
atirada de lá de trás. O que atingirás? 


13 de setembro de 2012

União Estável



Em seguida ao felizes para sempre,
dancemos o minueto de fidelidade.
Arredonda-me bem
a fim de que ainda te sobres qualquer vão
depois que me houveres decorado.
Deslinda-me a cara
que se amortalhará com pelosinais hinduz.
Domicílio conjugal ou concílio dominical,
será a união estável, DDT estável.
Chegarei às oito menos um quarto
após oito longos trabalhos de hora.
A viver sem vigília,
morrendo de sono.
Conterás os sempiternos perfumes do mal
curtidos no tédio cinza dessa espera
e hei de com tal me embriagar bem
antes de te possuir.
Amor, já posso ir?
Saber-te-ás a coisa mais importante que há,
o que te reconsagrará rainha ao me reificar.
Fumaremos os cigarrinhos d’artista
sem atinar que são as fezes da mesma vaca
que então caberá nesse prato que me fazes,
e aos filhos: coma sucrilhos e jamais cases.
Serei já um casto
e ainda hedonista
por ter semeado aspirinas por sob os tacos.
E deitaremos embrutecidos de cetim
e cobertos de razão
a digerir o feijão de nosso amor sem mim.