TRANSATRAVESSADOS

8 de setembro de 2012

Medusa e Perseu






A beleza antiga reclusa                    Auxiliado pelos numes
no fundo desse monstro                    o antifeminista Perseu
em uma gruta sombria,                   recebeu deles donativos
essa mais abjeta heroína:                 a fim de encarar a fera:
ela a de pelescamosa,                      sandáliasas herméticas,
que ostenta presalientes                  o plutônico elmobscuro
e uma fina línguarcaica                 e a paladina égidespelho
a ser por demais mulher                  para invadir o seu covil
com tão deletéria peruca                   qual invisível soldado,
a da cabeça serpenteada                 alado ligeiro saqueador,
da impetuosa Medusa                      devastador irreflexível,
que do horror é máscara                     da morte mensageiro,
por sobre o seu olhar                     entregar seu mau recado
guardião da maldição                     sem que no chão padeça
cuja violação primordial                o tal machão petrificado
de ser levada pela maré                  sem levar aquela cabeça
a fez violenta a poder                     que degolada e sacudida
tornar a carne em pedra,                 bem serviria de amuleto
estátua a quem a for ver.                a tão célebre feminicida.

3 de setembro de 2012

Couves-flores do Mal



O que há de inebriante no mau gosto
é o prazer aristocrático de desagradar.
CHARLES BAUDELAIRE


I
Ao Fedor

Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
- Hipócrita fedor, meio mingau, meio feijão!

II
Intestino e Anal

Sob a benção do albatroz que pressente a elevação
Dos gases em correspondências, faróis do azar
Das musas venais e doentes de vida interior,
Castigo de inimigo do orgulho e da beleza o pum
Que a giganta de máscara solta o traque gótico;

Envolta em ondulante traje nacarado
A serpente que dança na carniça,
De profundis o processo semper eadem,
Toda ela o veneno do céu nublado
Moesta et errabunda o tonel do ódio,
Odor que é heautontimoroumenos!

III
Flatos Incontinentes

Quando te ouço peidar, minha fétida indolente,
Em meio aos sons da orquestra que se perdem no ar,
Movendo o cólon harmoniosa e lentamente,
E gaseificando essas fezes de teu forçoso bufar;

Quando farejo, sob a luz do gás que a cora,
Tua amarelada mão em mórbido recato,
Onde as flamas da morte que pões para fora,
Com teu cu que mais que cu é todo flato;

Mas eu, eu que de tão longe vos rastreio a trilha,
Que, pela narina, sei bem de onde o tal odor partia,
Como se me correspondesse a ovo, repolho e ervilha,
Transporta-me o fedor que arde, exótica perfumaria! 


29 de agosto de 2012

Como se Chama



Este que caiu como luva, este que ascendeu pela obra,
ora se chamava Silva, ora se chamava Cobra.
Este que modelava jarros, este que levava a tocha,
ora se chamava Barros, ora se chamava Rocha.
Este que agorinha jaz, este que está sob a terra,
ora se chamava Paz, ora se chamava Guerra.
Este que parece legal, este que difere de tantos,
ora se chamava Leal, ora se chamava Santos.
Este que rever prescindo, este que visita a gente,
ora se chamava Benvindo, ora se chamava Parente.
Este que se enche de alegrias, este que mal se atura,
ora se chamava Dias, ora se chamava Ventura.
Este que a comer se senta, este que sorve seu bocado,
ora se chamava Pimenta, ora se chamava Salgado.
Este que cruza horizontes, este que aguenta horrores,
ora se chamava Pontes, ora se chamava Torres.
Este que é tão distinto, este que ético demais,
ora se chamava Pinto, ora se chamava Morais.
Este que voa com pirilampos, este que vive com chatos,
ora se chamava Campos, ora se chamava Matos.
Este que se dá inteiro, este que todo peso conduz,
ora se chamava Cordeiro, ora se chamava Cruz.
Este que será cremado, este que virou pó,
ora se chamava Amado, ora se chamava Só.



24 de agosto de 2012

La Niña (Burn, Brazil, Burn)

Há umas reféns desse céu de agosto com bolhas de asfalto nas rótulas da alameda necropolitana
na cidadezinha do estado temperado.


Há a baixa umidade relativa do ar
com que o sol inferniza o chão e o que quer que sobre sobre
como meteorologistas profetizam.


Há sons secos em todos os cantos
das gargantas daquelas que regam a cruz com garrafas PET
e é novena o nome que se chama.


Há redemoinhos de fogo pela roça
enquanto a indiazinha reza por já não poder ser Gene Kelly
mas chuva que é bom ainda não há.