TRANSATRAVESSADOS

13 de setembro de 2012

União Estável



Em seguida ao felizes para sempre,
dancemos o minueto de fidelidade.
Arredonda-me bem
a fim de que ainda te sobres qualquer vão
depois que me houveres decorado.
Deslinda-me a cara
que se amortalhará com pelosinais hinduz.
Domicílio conjugal ou concílio dominical,
será a união estável, DDT estável.
Chegarei às oito menos um quarto
após oito longos trabalhos de hora.
A viver sem vigília,
morrendo de sono.
Conterás os sempiternos perfumes do mal
curtidos no tédio cinza dessa espera
e hei de com tal me embriagar bem
antes de te possuir.
Amor, já posso ir?
Saber-te-ás a coisa mais importante que há,
o que te reconsagrará rainha ao me reificar.
Fumaremos os cigarrinhos d’artista
sem atinar que são as fezes da mesma vaca
que então caberá nesse prato que me fazes,
e aos filhos: coma sucrilhos e jamais cases.
Serei já um casto
e ainda hedonista
por ter semeado aspirinas por sob os tacos.
E deitaremos embrutecidos de cetim
e cobertos de razão
a digerir o feijão de nosso amor sem mim. 

8 de setembro de 2012

Medusa e Perseu






A beleza antiga reclusa                    Auxiliado pelos numes
no fundo desse monstro                    o antifeminista Perseu
em uma gruta sombria,                   recebeu deles donativos
essa mais abjeta heroína:                 a fim de encarar a fera:
ela a de pelescamosa,                      sandáliasas herméticas,
que ostenta presalientes                  o plutônico elmobscuro
e uma fina línguarcaica                 e a paladina égidespelho
a ser por demais mulher                  para invadir o seu covil
com tão deletéria peruca                   qual invisível soldado,
a da cabeça serpenteada                 alado ligeiro saqueador,
da impetuosa Medusa                      devastador irreflexível,
que do horror é máscara                     da morte mensageiro,
por sobre o seu olhar                     entregar seu mau recado
guardião da maldição                     sem que no chão padeça
cuja violação primordial                o tal machão petrificado
de ser levada pela maré                  sem levar aquela cabeça
a fez violenta a poder                     que degolada e sacudida
tornar a carne em pedra,                 bem serviria de amuleto
estátua a quem a for ver.                a tão célebre feminicida.

3 de setembro de 2012

Couves-flores do Mal



O que há de inebriante no mau gosto
é o prazer aristocrático de desagradar.
CHARLES BAUDELAIRE


I
Ao Fedor

Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
- Hipócrita fedor, meio mingau, meio feijão!

II
Intestino e Anal

Sob a benção do albatroz que pressente a elevação
Dos gases em correspondências, faróis do azar
Das musas venais e doentes de vida interior,
Castigo de inimigo do orgulho e da beleza o pum
Que a giganta de máscara solta o traque gótico;

Envolta em ondulante traje nacarado
A serpente que dança na carniça,
De profundis o processo semper eadem,
Toda ela o veneno do céu nublado
Moesta et errabunda o tonel do ódio,
Odor que é heautontimoroumenos!

III
Flatos Incontinentes

Quando te ouço peidar, minha fétida indolente,
Em meio aos sons da orquestra que se perdem no ar,
Movendo o cólon harmoniosa e lentamente,
E gaseificando essas fezes de teu forçoso bufar;

Quando farejo, sob a luz do gás que a cora,
Tua amarelada mão em mórbido recato,
Onde as flamas da morte que pões para fora,
Com teu cu que mais que cu é todo flato;

Mas eu, eu que de tão longe vos rastreio a trilha,
Que, pela narina, sei bem de onde o tal odor partia,
Como se me correspondesse a ovo, repolho e ervilha,
Transporta-me o fedor que arde, exótica perfumaria!