Há umas reféns desse céu de agosto com bolhas de asfalto nas rótulas da alameda necropolitana
na cidadezinha do estado temperado.
Há a baixa umidade relativa do ar
com que o sol inferniza o chão e o que quer que sobre sobre
como meteorologistas profetizam.
Há sons secos em todos os cantos
das gargantas daquelas que regam a cruz com garrafas PET
e é novena o nome que se chama.
Há redemoinhos de fogo pela roça
enquanto a indiazinha reza por já não poder ser Gene Kelly
mas chuva que é bom ainda não há.
- o poeta na Eucleia Editora
- o poeta no Skoob
- o poeta no Facebook
- Livro Ruído no Facebook
- reportagem no Estadão
- entrevista ao Diário da Manhã
- entrevista a Marcelo Novaes
- entrevista ao Perfil Literário Rádio Unesp
- leitura em PoesiAudível
- performance na praça (vídeo)
- text und tanz na vernissage (vídeo)
- "Fôlego" na Casa das Rosas (vídeo)
- lançamento no CCSP (vídeo)
24 de agosto de 2012
19 de agosto de 2012
X versus X
ataque nessa abertura no tabuleiro como heróis imortais
defesa encastelando roque que peão de passagem constate
letras de engenhosa torre que aprisiona lances ortogonais
brancas marfim versátil dama durante meio jogo combate
números sob estratégia de bispo doutrinando as diagonais
pretas ébano rei inimigo recebe xeque oferecendo empate
ciência posicionando bem ao cavalo em movimentos finais
arte quadriculada com maestria conduziu ao xeque mate
14 de agosto de 2012
Quilombonírico
Eu tenho o sonho impossível de fundar um quilombo.
A gente poderia se encastelar em algum eremitério montanhoso
no qual o dinheiro seria apenas tiras de papel e botões de metal,
sem qualquer outro valor além do que deveria ter essa arte ruim
que produz em série todos esses números redondos e caras feias.
Queria fugir agora para lá, partir desta infeliz cidade.
Deixar RG, CPF, saudade,
inúteis ao desembarcar naquela nova liberdade que se descobrirá.
Eu queria construir uma casa na mata, uma casamata,
anarcoindividualista primitiva e agnosticista modelar,
onde estabeleceria esta minha comunidade incomum,
um búnquer antissistema ou blocausse anticivilização.
Este lar sem pai ou patrão,
sem endereço para a pizza
ou para a fatura do cartão.
Poucos humanos seriam bem-vindos neste meu abrigo anti-Deus,
ilha de excelência maldita, embriagada e supermusical.
Onde ninguém nunca passaria fome, onde todo mundo se come.
Pequeníssima nação, seríamos um paisinho à paisana, pluriforme,
em forma de lacônica colônia ou mesmo de misantropa colmeia.
Seria um asilo adolescente, Eldorado do sobrevivente.
Uma Cocanha de continente ou Pasárgada emergente.
Nesta fortaleza dos fracos,
sem qualquer comunicação com o restante do mundo,
não seríamos talvez menos tristes, mas seríamos menos os tristes.
Seria uma sociedade ideal, de aldeões e aldeãs e tesões
libertários.
Seria uma sociedade sem alternativa a não ser estar lá,
contra todo Estado sólido,
sendo poucos para poucos, lindos e líquidos e loucos,
a cantar nosso hino gozoso, tão estúpido e contagioso.
Um todo à parte, esta tal republiqueta de artistas seria de todos,
apartidários e expatriados e patéticos, jamais apáticos.
Autoembargados, teríamos ali o nosso lugar de susto sustentável,
uma democracia direta, dileta e sem dieta ou regime.
Nossa população faria saraus como jamais houve, como imagino,
povoando nosso território com muita lira e punheta,
uma ditadura do palavreado
gigante pela própria malícia. Não tem arame farpado.
Quase um outro planeta, sem guilhotina ou império ultramarino.
Sem ter exército ou polícia, estaríamos a sós em nossa autarquia.
E nossa linha de direito seria mais torta do que nós.
Cumprimentar-nos-íamos com a mão esquerda, só por telepatia.
Aqui são quase todos perfeitos, os imperfeitos ainda mais sãos.
Uma contradição anímica a favor da adição química,
esta nossa turminha tão culta plantaria de tudo, o que é natural,
sintetizando o que fosse necessário, dialética mente, na verdade,
já que todos seríamos alquimistas de nossas vidas experimentais,
recém-regressadas à Era de Ouro de neo-neandertais.
Refúgio de engenho livre,
todo sonho de quilombo é nossa usina do impossível.
Esta utopia seria o meio de nos libertar do tempo da escravidão
e da escravidão do Tempo, império do mero factível,
e então o fim da História.
Esta utopia, mesmo minúscula, poderia ser nômade, festa móvel,
para que nela o sol jamais chegasse a nascer, nem a balada acabar.
Esta utopia não teria muros ou fronteiras para dar uma bandeira
de onde nos encontramos, pois nos acusariam de qualquer terror.
Esta utopia teria lugar em qualquer lugar onde nós estivéssemos,
mesmo longe uns dos outros, ou até sem que nos conhecêssemos,
como se nossas liberdades se encontrassem neste tal quilombo
que sonhamos em comum.
Aqui se mora de frente para o mar, que fica de frente para o bar.
Um oceano ciano com camarões de comer e fumar.
Aqui tem campos de pomar, com idílicos pés de rede e preguiça,
e edênicas árvores de vida e de conhecimento, do bem e do mal.
Tem outro pau que dá sozinho pecado madurinho o ano inteiro.
Aqui ainda não inventaram o trabalho ou a tortura,
apesar desses palavrões constarem como sinônimos.
Ainda não somos imortais,
mas aqui só precisamos comer ou dormir quando temos vontade;
aqui as pessoas são de uma raça só, humana, de todos os gêneros;
aqui a bomba já explodiu, mas ninguém nem ouviu.
Vem para a minha matutopia ilegível, vem ser ímpio, virar índio.
Quilombonírico, um escombro lírico. Aqui não se paga o IPTU.
Vem ver o meu reino invisível, onde todo mundo é rei e está nu.
9 de agosto de 2012
soneto pichado
as letras de noite pichadas
são palavras de outra ordem mais aberta
aqui nestas feias fachadas
da rua principal da minha cidade
deserta
onde fujo pela rima dos fundos
com cadelas no calcanhar ao pular
muros
e apenas por poucos segundos
chego a escapar mesmo dos piores
apuros
apesar que às vezes caio e quebro a
ousadia
com uma fratura exposta do meu
latim
que ninguém lê ao passar aqui no
outro dia
porque se outrora minha vida era um
festim
já me vandaliza demais borrifar poesia
mas sigo versejando em preto fosco
colorgin
4 de agosto de 2012
Visita ao Sono
A entrada não é gratuita, mas
barata, e se cobra simbolicamente.
Tomara que remédios? Tomara
contra os tédios?
Tomara o vermelho que sim ou o
azul que não?
Gregor Samsa ou o grego Tifão?
Passado o detector de metais,
se nada de mais estiver presente,
cegue-se de olhos no guia do
futuro para trás, e vou na frente.
A orientação essencial,
de que aqui as coordenadas
egocêntricas têm valor nulo,
basta para nos nortear:
À esquerda são os fundos,
e ali as sobras de arte da
Sifilização Acidental. Descontraiam-se.
Atrás fica o teto, até onde a
vista alcança. Cuidado com a cabeça.
Acima há bancos onde a poupança
pode descansar, logo à frente.
Adiante temos o chão. Por favor
não pisar ali.
Abaixo a direita! – grito,
entre outros ruídos. Fica proibido tocar
no silêncio de ouro.
E antes de voltarmos ao ponto
de partida, a praça de alimentação
aos que cumpriram nossa
determinação: não entrar com comida.
A saída de emergência será através
da nossa loja de conveniência.
Espero muito em breve poder
revê-los
para qualquer outra visita
monitorada a um dos meus pesadelos.
30 de julho de 2012
21 de julho de 2012
Lido com teus olhos
Entre a aflição de
sorver vertigens e o prazer de insuflar miragens
não possuo tempo de
dormir e apenas sonho
porque a minha
paciência latejando observou
o esvaziar de seus
olhos até não mais não ver.
Nada aparece dentro
embora tanto seja visto
e pela leiga
vidência dos que olham ao redor
diversas vezes em
pleno silêncio de um cimo
ouço (essa voz
cega
ler) e sei
ser usado.
17 de julho de 2012
Literatura Erótica
Suas exceções silenciosas
repletas de cada ação;
seu beijo recheado de promessas
e línguas vivas, todas tão prosas;
seu sexo de ainda não,
páginas jamais impressas.
O corpo do seu esperanto,
o rosto, o miolo ímpar;
seu ponto G como se um mapa,
a sua lombada que desejei tanto;
que traçarei a capitular,
esse Tesão por sob a capa.
12 de julho de 2012
Não Ficção
Loucura não... Literatura; ainda que me digam ser uma
louca literatura. Começa assim: Antes de mim o sonho, que é de onde vim. Para
onde voo? Para o céu seco dessa cidade mapeada na minha cabeça em repouso na
palma da mão, ao redor de qualquer dos sóis com o nariz quase sangrando e uns
gostos comprimidos na boca. Sim, meu caso é ou pode ao menos parecer mesmo
curioso. Uma camada espessa de pré-história no ar, haja vista a grande nuvem de
pré-apocalíptica poluição que se inala nestes dias, uma droga pesada de nuvem
carregada por mim de estrondo a pairar no horizonte de eventos além do olhar;
nada mais e nadas amenos do que poeira das eras, partículas de dinossauro, ou,
tão somente, tempo em pó.
Imagine essa fauna fantástica ao redor. E eu de pijama.
Os carros, essas belas máquinas de ir dentro para frente,
filtrando em quatro rodas os grandes répteis de outrora, relançando-os na
atmosfera. Paira mesmo a própria ocasião sobre nós. Canto tanto espanto... veja
só: consumismo e objetos de apego, os diversos tamanhos de brinquedos. Um carro
ali leva uma menininha que tosse, convulsiva, segurando o seu dinossauro de
plástico. Que formidável ironia!
Sorrio um pouco disso, já satisfeito, mas não é hora
ainda de conhecer a saída.
Os automóveis são em sua maioria pretos, pratas, cinzas e
brancos. Os pombos também. Há quem diga que são nocivos à saúde do homem, mas
não me incomodam, com exceção das buzinas, que me tiram a paz. Levanto-me do
banco do parque (onde mato em legítima defesa as minhas horas de entidade
desperta, vigilante reformado que sou aqui) e ganho a rua. Pego um branco.
Menciono o destino e ele gorjeia alto, no que os demais abrem caminho, céleres,
em revoada.
Esse sonho é um daqueles que eu podia ter até acordado,
analiso.
Todos os olhos do brasileiro (pelo sotaque) que dirige se
dividem entre o para-brisa e o retrovisor a me encarar o quanto permite o
trajeto. Uso ósculos de sol redondos, espelhados, e me pergunto, mentalmente, o
que ele vê em mim. Pura reflexão? Incomodado, tiro detrás da orelha uma mecha
de cabelos e cofio a barba, idiossincrando os gestos que não tenho, e os pelos
todos que de fato tenho parecem se arrepiar sobre a cama do meu quarto, onde
devo estar a dormitar. Pergunto a ele se eu posso fumar. Ele fala baixo, ou
pensa alto: “Melhor não, já que provavelmente vai mesmo pular a parte em que
teria de me pagar pela corrida.” O que acho que ouço assim traduzido, e
respondo: “Melhor sonhar que tenho dinheiro para pagar, mas nem precisava,
porra! Que o sonho é meu, cara... Toca isso em bandeira dois, que aqui sou
deus. Até podia ir voando, mas prefiro ter classe.” Aperto o botão que faz ele
apertar o botão que abre a minha janela, automaticamente. E acendo um Lucky, achando-me com sorte. Ele liga o rádio para que uma Brigitte Bardot agonizante me
sugira à mente a couple of
acasalamentos. Pergunto se tem jazz, o que ele entende chess, dizendo que “Sim, gosto muitíssimo, mas não tenho com quem
jogar.” "Toca para outra estação", digo-lhe, no que começa a nevar. E sai Bird,
com a fumaça, pela minha janela. Ele escorrega a máquina até conseguir um roque
meio tupiniquim à esquerda e me dá seu cartão, junto com o que sobrou da minha
onça pintada. Diz “gracias”.
É hora do almoço, e meio dia é sempre verão para mim. Faz
232,7777777777778 °C.
Peço uma Original, mas não dessas de hoje, que são
cópias, e fico tomando bem devagar, de canudinho, a ler uma revista em quadrinhos enquanto demora
o meu cheese-colesterol. Estou no
quadrinho grande da penúltima página, no canto inferior direito, bem desenhado
assim colorido e de meio-perfil, que é o meu melhor ângulo, sentado no balcão
sujo a ler a última página deste mesmo gibi, e embaixo está escrito
“...continua na edição de janeiro”. Eu deveria chorar nessa parte do sonho, mas
não o faço de fato; assim mesmo a balconista me pergunta se comigo “está tudo
bem?”. “Apenas um pouco emotivo já é motivo”, respondo, marcando uma página
qualquer como se aquele decotinho estivesse me interrompendo, no que abandono a
leitura em favor do nanquim daquela pele que larga às quatro, “sim, posso
esperar”.
O que fazer enquanto isso ainda não dá naquilo?
Engulo o segundo lanche com o último gole de cerveja e
atravesso a rua em direção ao cinema. Um detalhe importante é que nisso sou
atropelado e morro, mas daí a meio cigarro já ia começar a projeção do filme, e
então me apresso mais do que gostaria. Entrego o meio cigarro que resta a um mendigo que passa
e entro na sala. Fico subitamente contente porque ir assim à sessão das duas
horas é tão bom, ainda mais às quartas-feiras, quando é mais barato e vazio,
apesar de hoje ser sexta-feira e de eu nem ter lembrado de descrever a parte da
bilheteria, motivo pelo qual analiso que nem devo ter pagado a entrada. O filme é... deixe-me
pensar... alguma coisa que nunca vi na vida, talvez um Fellini novo... não...
um Fellini de 1964, quando ele não lançou nada, afinal; um Fellini entre o 8 ½
e o Julieta dos Espíritos... sim... um filme genial esse Sonhar com Davi, que
conta o último pesadelo tido pela cabeça decapitada de Golias, coitado... tem um macarrônico toque de Proust e tal; mas o melhor é que tem simultaneamente Masina e
Mastroianni no elenco. Recomendo. Duas horas depois, saio do cinema com um sorriso e pego de volta aquela minha ponta de cigarro que havia deixado o
mendigo fumar, pelo que ele ganhou um real, logicamente.
É quando a gente percebe que está sujeito a tudo nessa
puta vida.
Começo a sentir as propriedades diuréticas da cerveja, da
qual preciso urgentemente me aliviar, o que não faço em qualquer lugar, a menos
que isso seja absolutamente necessário. Como é conveniente, procuro ir ao
banheiro da lanchonete, mas está ocupado; aí volto ao cinema, onde há fila.
Nada mais ao redor... procuro e não encontro nenhum lugar para mijar. Então
você me dirá que “faça na rua mesmo, escondidinho, porque homem é assim e faz em
qualquer lugar". Você entende e as pessoas na rua entenderiam também, certo? Mas
não é tão simples, senão qual seria a graça de eu estar te contando isso? Digo
que fazer num muro ou poste foi a última coisa na qual pensei. Cheguei a
cogitar em por o pau para fora ali na esquina e fazer uma performance quando o
farol fechasse, mijando para cima e bebendo, ato contínuo, mas a presença ostensiva de
policiamento nesse dias de pagamento (era uma região com muitos bancos) me
inibiu, já que eu poderia ser preso por atentado violento ao pudor, à moral e aos bons
costumes, bem como estar incorrendo em crime passível de punição até mesmo
pela vigilância sanitária, além do fato de que ainda não tenho licença para ser
artista. O que eu faço, então? Vou até o banheiro daqui de casa, no meu quarto
mesmo, que convenientemente é uma suíte, justamente para ocasiões como essa.
Aí, antes que você ache que trapaceei, escrevo aqui uma
nota autobiográfica, a título de informação, para me justificar: o autor é
sonâmbulo.
Então, já que estou ali, aproveito para escovar os
dentes, passar desodorante e pentear os cabelos. Como se trata de um sonho, e
não de um pesadelo, não estou com espinhas. Volto a me deitar, preparado para
ir para a cama com a garçonete. Saindo do trabalho, ela quer ver um filme, e logo
o mesmo que vi, mas consigo convencê-la, após explicações demoradas, de que o
tal filme é de minha autoria, o que me tornaria não tão bem-vindo ali.
Recomendando-me fazer análise, ela aceita o programa que proponho. Quinze
minutos depois, estou no banco de trás do taxi do J. C. Merrick (aquele
brasileiro), com a Vénus noire me
chupando, a caminho de um motel.
Sonho meu, né!?
Chegando lá, só era possível entrar de carro, já que
Jeanne é moça de respeito e tem muita vergonha de ser vista nessa situação a pé.
Sendo assim, tivemos de entrar os três. Eu estava pagando a corrida, em
bandeira dois ainda, mas, não contente, J. C. propôs ir conosco até o quarto,
uma proposta da qual mui humilde e heterossexualmente declinei. Ao invés disso,
propus a ele que fosse em meu lugar, pelo que me pagaria bandeira dois. Jeanne
protestou, mas aceitou fazê-lo desde que recebesse de mim por isso, para o que
combinamos bandeira um. E assim, para encurtar a história, passei a noite toda
ouvindo big bands no carro, a fazer planos para expandir o recém descoberto
nicho de mercado, o da cafetinagem com taxímetro e, para encerrar, digo que
acordei sem o dinheiro do negócio no bolso do pijama, o que é um dos principais
riscos dessa moderna profissão, mas ainda assim pretendo investir no ramo.
O dia amanhecia e eu precisava pedir as contas no serviço
para ter o capital necessário.
Meu chefe não quis acreditar, chamando-me de louco. E, só
para me sacanear, me demitiu por justa causa, recomendando-me um exame da
cabeça, com o que o presidente do meu sindicato e o juiz responsável pelo meu
processo trabalhista também concordaram. Nenhum advogado quis me defender, e a
minha autodefesa inexperiente não foi suficiente para me livrar do hospício, ainda
mais após o resultado dos exames ter servido de prova principal da acusação no
meu caso. Pois é... Hoje, 15 de dezembro de 2010 é meu aniversário de 31 anos e
aqui estou. O que posso dizer? Sou muito bem sucedido e realizado nessa
profissão que exerço durante oito horas por dia, como qualquer bom cidadão,
ainda que ela seja ilegal e considerada nociva à sociedade, pelo que eu mesmo
me sinto também um pouco em dívida, motivo pelo qual escrevo poemas e outros
textos, como este, que publico de graça aqui, apenas para o deleite dos meus
colegas de diagnóstico, que como eu também se declaram inocentes. E todos têm
razão.
6 de julho de 2012
Narrativa e erro
A extinção dos
morcegos será a das bananas / Ó Deuses, deuses,
dai-me um peidinho piedoso / A desfolhar borboletas /
Ordenar adornos, tornear transtornos /
Paisagem com mosca,
fosfena com cisco /
Teorema do ser ao sul /
Pela qual acaricio o
tesão dentado com algum punhado de luvas /
Onda acordeonista que
toca o tempo de banho / De visual arcaico
forjado então adiante / Se o futuro do passado está sem-
pre parado / Espreita através
de um ouvido da porta / E intui o ferreiro /
Que inexistindo pai /
Orfeu /
Ferveremos os fetos
dos órfãos
E neste céu roxo, um
sol de ameixa /
Miraculosamente amadurece /
A salgada mágoa de lesmas desse Zéfiro horizontal
contudo oculto no núcleo do outono /
E aí bebo
a solução do problema anterior /
A endossar os nervos lançados / No instante
lubrificante brutal que ilumina / Esta confeitaria cerimonial,
oficina luciferina /
Bagagem (de mão) de ferro derramado /
Em todas as espécies de plantas dos pés / Mistura de fumos
na carta de rumos /
Logro lírico a
colorir do rigor / Livre desses destinos repulsivos /
E o pulso dissidente
sorve seu nervo servil / Nascente incógnita
de eficácia fescenina /
Epopeia que se copia
opiácea no último cerne do sonho lotado /
No detalhe do
detalhe retilíneo / Cume de faca, gume de pico /
A devassidão do vocábulo fodido /
Badalo fosco que é puro ouvido / No crânio descontínuo /
Do homem relutante que, estranho em seu túmulo / Some
este coro de covas /
À tua ilha-presença, este lugar que criei só /
Louco ou coisa melhor /
Nestes dois quartos
da hora de fama / Altivo discurso sozinho /
Até antes da tattoo seu corpo no tempo era obra em progresso /
Projeto para algum
imprevisto enquanto prova da fruta-mídia /
Ciência que se
debruça / Nesta cinza volátil / Readolescendo /
O seu nascer
bifurcado /
Desde a vodka gótica
/ Tomada com gelo de água de torneira /
Em meu quarto de costas para a Metrópole /
Outro / Mesmo aprendiz de branco (75%) /
Com a memória explícita de lobo temporal /
Pó de ser lido o meu Mal
(dito diário) /
Ao empapelar sua prole de sotaque etrusco /
Ou decretar milagre em estado de exceção /
Neste seu curso intensivo de arlequinagem /
Que (mar)ca dente / Alfabetos / que falo
besta /
Como se do mero exercício de canto kitsch /
Eclodissem as sedes que li / E doces de lis /
Sangria de amor cego ao escalpelar patrões /
Um cheiro de som / Cor
que se tateia,
gosto que se tatua /
Como se o sonho fosse
tão mais real /
Pois, chupada esta
realidade, ele seria tudo aquilo que te resta /
Pois o real sou eu
(menos a vontade) /
E este f(i)ode Ariadne /
Extremo sexo-trem da
razão exausta (se extenua tu de anexo) /
Rumo ao horizonte
que já se doura / Do sol que a foto estoura /
Flechas do Amor: ser
de mais formas do que Satã ou o açúcar
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