TRANSATRAVESSADOS

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8 de agosto de 2013

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A manhã de primavera 
convida a vir para fora 
sentir uma brisa esguia 
como tanto dizia o avô 
ler em sua hora o calor 
que indeniza da espera 
e faz brotar o que a flor 
quer dizer com o canto 
a crescer em Rimbaud: 
de cordial a carnal, o rouxinol sob o sol. 

A tarde de verão 
cuja perspectiva 
caso não se note 
era bem que arde 
se chora madura 
do que foi botão 
vem braço dado 
e emoldura a via 
com Caillebotte: 
poças rasas de passos por baixo da chuva suja. 


A noite de outono 
a ventar o espetro 
da má companhia 
ou raro abandono 
na falta desse laço 
pó de ser ninguém 
que é música vazia 
a alentar o séquito 
por trás de Cobain: 
alguma corda de aço em seu braço sem dó. 

A madrugada de inverno 
precipita o seu nó futuro 
sobre o cabelo tão níveo 
no abotoar do terno de lã 
que visita ainda acamada 
leva das dores ao buraco 
o sofrível quarto escuro 
mas belo a restar no fim 
dos cafés com Bergman: 
violoncelo tabaco, cobertores carmim. 



18 de abril de 2013

Trabalhos Noturnos


Traga pedra a madrugada inteira!
É uma banguela, é uma marginal,
e fica craque como caminhoneira:
a última saída é pela preferencial.

Sombra e tara, notícia imediata?
Finge que me ama, atuar é atual.
A cara na tela, na cama é barata:
um programa por um comercial.

Ele é poeta ou padeiro,
suponho. Nada matinal,
o amanhecer o aquieta.
Vai dormir o dia inteiro:
é um sonho por um real. 


10 de janeiro de 2013

Resoluções de (ano) novo




Não me deprimir com tudo aquilo que normalmente alegra
Jogar muito xadrez, adotar um gato preto e não pensar em viajar
Chorar menos, exceção aos Bergmans que confirmam a regra
Ganhar algum dinheiro, nem que para isso seja preciso trabalhar

Ir mais ao teatro, não ir menos ao cinema, ou reciclar relógios
Fumar apenas depois de comer e comer com mais frequência
Ser menos territorialista, dividindo meu espaço em episódios
Parar com as aventuras e tentar suicídios com mais prudência

Beber água e dormir, para dar uma variada ou mesmo sobreviver
Arriscar-me a discordar de Nietzsche, Cioran e Schopenhauer
Nunca perdoar e nunca capitular, e, sempre que possível, esquecer
Aliviar nos assuntos, sem no entanto incorrer no Flower Power

Nunca deixar a cor me distrair da profundidade em Van Gogh
Fotografar somente em P&B para enxergar mais com menos cores
Deve ser urgente reler Huidobro, reouvir Monk, rever Herzog
Afastar-me das criaturas que costumam se aproximar de criadores

Escrever menos e ler menos ainda, e, falar e ouvir, jamais
Legar à posteridade uns quinhentos nus frontais, enquanto duro
Amar mais através do sexo do que foder amando demais
Evitar relacionamentos à distância, sobretudo com os do futuro 


29 de novembro de 2012

O Barco Sóbrio




Como subo impassível pelos rios na piracema,
Obediente ao sentido dessa direção aborrecida;
Preocupa-me demasiado minha carga extrema.

Pelos rios nunca segui, ancorado nessa tal vida,
E nem uma só vez me banhei naquele Poema
Do Mar, por abstemia mais forte que a bebida.

E se desejo alguma água da Terra, é a selvagem,
Cálida e clara vaga, sob a mais excitada aurora,
Na qual arroja um aventureiro cheio de coragem
O seu barco intrépido como um tubarão devora.

Mas, deveras, jamais chorei! As albas são penosas.
Toda lua me é muralha e todo sol uma carceragem;
O grave fastio me secou com sobriedades tediosas.
Que minha quilha empene! Que eu jaza à margem! 


13 de setembro de 2012

União Estável



Em seguida ao felizes para sempre,
dancemos o minueto de fidelidade.
Arredonda-me bem
a fim de que ainda te sobres qualquer vão
depois que me houveres decorado.
Deslinda-me a cara
que se amortalhará com pelosinais hinduz.
Domicílio conjugal ou concílio dominical,
será a união estável, DDT estável.
Chegarei às oito menos um quarto
após oito longos trabalhos de hora.
A viver sem vigília,
morrendo de sono.
Conterás os sempiternos perfumes do mal
curtidos no tédio cinza dessa espera
e hei de com tal me embriagar bem
antes de te possuir.
Amor, já posso ir?
Saber-te-ás a coisa mais importante que há,
o que te reconsagrará rainha ao me reificar.
Fumaremos os cigarrinhos d’artista
sem atinar que são as fezes da mesma vaca
que então caberá nesse prato que me fazes,
e aos filhos: coma sucrilhos e jamais cases.
Serei já um casto
e ainda hedonista
por ter semeado aspirinas por sob os tacos.
E deitaremos embrutecidos de cetim
e cobertos de razão
a digerir o feijão de nosso amor sem mim.