TRANSATRAVESSADOS

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30 de maio de 2013

Buster Keaton

cara de pedra 
louco acrobata 
intrépido poeta 
quem te ampara? 
belo saltimbanco 
em preto e branco 
por que te arriscas 
às quedas e faíscas? 
talvez por travessura 
ou porventura mudez 
jamais saias do ângulo 
se não estás sonâmbulo! 
porque tu sempre corres 
veloz para a imensa ação 
e rio e choro e não morres 
nem mesmo contra canhão! 
e nenhuma vez ris ou choras 
de ódio ou de amor no cinema 
diante dos vis ou se te enamoras 
como se já projetasses este poema 



25 de abril de 2013

anatemancipação

toda metáfora é metade
e dura fura cada áfona plêiade que evade
que
chic é ser maudit Poète
a declamar com chiclete
se vós exilados de Babel
ouvis nesta voz de papel
que
toda paráfrase parafusa
e gira e pira cada crase se abusa da musa 



18 de abril de 2013

Trabalhos Noturnos


Traga pedra a madrugada inteira!
É uma banguela, é uma marginal,
e fica craque como caminhoneira:
a última saída é pela preferencial.

Sombra e tara, notícia imediata?
Finge que me ama, atuar é atual.
A cara na tela, na cama é barata:
um programa por um comercial.

Ele é poeta ou padeiro,
suponho. Nada matinal,
o amanhecer o aquieta.
Vai dormir o dia inteiro:
é um sonho por um real. 


18 de janeiro de 2013

Para quê?




Para estar inquieto ao termo da iniciação

a que teus escravos olhos me submetem.

Para que com o curto fio da liberdade

tu possas fazer corrediços

laços de vontade.



Para que as regras que falo

deixem de ser o fluxo

do meu idioma.

Para encontrar até a última interdição

e perdê-la na tradução.



Para que os que sabem dividir

não abram mão do resto.

Para separar de uma vez as famílias tão perfeitas

que prescindem de alguém

infamiliar tal qual tu.



Para compartilhar os dois silêncios

entre tu e tu

com o outro alguém além de mim.

Para que os mistérios contenham livros

que se atenham àquilo que os contém.



Para aliviar os egoístas

de suas próprias mortes.

Para que nossa idolatria do erro

remende com ouro

as cerâmicas rachadas da fidelidade.



Para que tombem

as almas das quais qualquer benzedeira

extrai um encosto.

Para forjar talismãs

mais inúteis do que os que nos salvam.



Para que os espelhos sejam torturados

até pararem de nos hipnotizar com a verdade.

Para abraçar a penúltima solidão

quando ela nos reivindica

só para si.



Para iluminar com gritos de orgasmo

os quartos dos idosos

que a escuridão faz dormir.

Para que todas as línguas cultas

convertam em práxis seus clitóris.



Para desengavetar as mil lágrimas

cujo pó habilita para a publicação.

Para que as crueldades

que desatamos a dizer

sempre ecoem em nós.



Para que outra juventude ainda queime

as horas grossas de alho e sal

que me alimentam.

Para fazer chegar estas palavras

aonde não chegam as formigas.



Para que os que desmaiam com susto

sejam beijados pelo que os assombra.

Para matar quem morre

de medo de temer

sua coragem.



Para emendar a minha constituição tão frágil

diante da reserva do possível

e garantir mais do que um mínimo existencial.

Para que o que mais se deseja em juízo

seja preciso.



Para nunca nos esquecermos de quanto viemos

ou para quando vamos.

Para que a criança do futuro

suspeite que os brinquedos de presente

não tem passado de arma.



Para que nos dê o álcool

cada vez mais barato

cobiçado de cara.

Para desengarrafar o que só se liquida

com uma dose de sede. 



Para que os muros sirvam de páginas

cuja razão sempre está do outro lado.

Para deixar crescer os cabelos

como se a sobejar os sistemas

que emaranharão as cabeças.



Para esmolar uma boa maldade qualquer

a quem quero tanto ou encarecidamente

amo.

Para que a nossa valorosa paixão

custe o apreço pela própria alma.



Para conferir o sangue dos sonhos

que a consciência prefere.

Para que lágrimas como punhos

por efeito físico ou causa moral

deem pancadas de chuva no céu dos astrólatras.



Para que o sexo como nós conhecemos

nunca deixe de gerar as estranhas forças

que continuamente desperdiça.

Para acelerar com novos nadas

o suplício lento do mesmo tédio.



Para que mesmo sem causa

tudo surta efeito.

Para asseverar que em tais frenesis

de princípios nomeio sempre

antes esse fim que ri.



Para que as derradeiras respostas

de nosso escasso estoque

reponham lá as questões.

Para que todavia se indague

para quê. 





29 de novembro de 2012

O Barco Sóbrio




Como subo impassível pelos rios na piracema,
Obediente ao sentido dessa direção aborrecida;
Preocupa-me demasiado minha carga extrema.

Pelos rios nunca segui, ancorado nessa tal vida,
E nem uma só vez me banhei naquele Poema
Do Mar, por abstemia mais forte que a bebida.

E se desejo alguma água da Terra, é a selvagem,
Cálida e clara vaga, sob a mais excitada aurora,
Na qual arroja um aventureiro cheio de coragem
O seu barco intrépido como um tubarão devora.

Mas, deveras, jamais chorei! As albas são penosas.
Toda lua me é muralha e todo sol uma carceragem;
O grave fastio me secou com sobriedades tediosas.
Que minha quilha empene! Que eu jaza à margem!