TRANSATRAVESSADOS

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6 de junho de 2013

Homem que é-homem, como Genésio, depois de morto, rasteja inda diversas léguas. Serpenteara de érrepente rumo Este. Num encaro de chãos, dos calçados de calçada aos barreiros do bairro, que voltariam-lhe para casa tão e calvo.  No final do expedoente de costureiro, estava com avançadidade. Ao se avistar pelo espelho, podia enxergar a calvície, podia enxergar a corcunda, podia enxergar as rugas; podia pelo menos enxergar muito bem. Genésio sabia que lhe haviam linchado sob granizo, motivo pelo qual estava bem ensopado, além de ensopapado. Outra vez através das veredades, outras vê ao dirimigir-se, pensageiro.

Ele não reagira, era contra; detestava na violência o inconteste de toda espontaniedade. Revoltava-se para o não adiantado do depoente, de encontro à rotação do tino, em desencontro com justicências... O estio da chuva veio com o estio do dia, ainda noite. Pensava caminhos na escuridão, numa escuridão daquelas que faziam brotar nele várias cabeças. Foi quandonde chegara, não em casa, mas a meio da caminhagem. Genésio penseou: estou habitado de glandes emoções, o que recinto muito. Desencloacara-se da cidade com hêsito, num êxodo de enxurrada. Quatreandando até acolalí donde se afundeava o só fim. Com seguir conseguiu apenas a duras penas covar uma cava, semeando a fofa terra consigo mesmo.

Deitado de lado, jazia inculto na jazida estéril, ajoelhado no próprio peito, iqual a feto. Raiava o outro, doirado, vindouro. Enquanto o morrido, socorrido do nascente melífluo, conjeturava: morrer por morrer mais valia ver o amanhã do sol. Genésio em tão se leveanta de dentro da própria sombra, na qual ainda se escora, e diante de um zenitão acorcorado na desvertical do fundo mais longelínquo, sabe-se há de mirar uma apariçona de umárvore, desfolhada em não mais que dez folhinhas, à contraluzular no que a via no que havia.

 Ficando de pérpendicular, abre Ivete, o canivete de ofício, que o vício da oficina não fez trabalhar a descoser umbigos a cintura alheia quando da precisão; este chovido na enferrujada véspera, o cortante fio estio do tempo de metal afiado a frio; com ele, grava no lombo do torto, desfolhado pé de planta, o nome chamado de seu memorial: “CÚ” é o que ele escreve, letras primeiras. Riscado com sete traços maiúsculos que revelam o vermelhado de dentro de por sob as aparências do pau em vida, consangrado no umbigo. Pensava alto nesse baixo relevo, câmara sempre escura que se desencarnando subia copiosa com seu mais alto repensar. De vez que na copa desse tino apassarinhou-se um pouso penoso de bem-te-vi que, a sismar, triscava o cimo da pensa-mente de Genésio em desatinada perguntação:

Pensas alto, mas mal-te-escuto, por que razão? Se te quis a ti mesmo um bruto a fugir do lume e a te embrenhar na treva analfabeta, por que agora me sai com esta de escrivinhos? Já que não aprendeu uma qualquer conta ou composição, como chega-me assim logo com tal palavrinha, um palavrão? E sem mais, sem mães nem paz, por que irrompe destarte como que parido de besta, parado na bosta, começado pela saída última? Além do que, tua exceção a ratificar todas as regras, quando mete no teu CU traçado um risco a mais, será por que agudo e inclinado o pinto-sete do próprio risco amais?

Responde Genésio: Ave, ave! É que andei, entre aspasmos, a voltar de longe nos sonos, sempre diverso, picado por sonhaduras como que de fogo, de ar de terra, de maravilhentas experianças. E, palavra, as palavras todas é queíme vem ao acasismo do movimentoda mão, na consciência, endireiteando a sinistrada ignorância que se encabrestava em mim. O tempo foi coisa preta, negrócio doido e doído do ido porvir. Eu parecia que a mim mesmo me paria. Foi quando nesse meio de tudo, para serviço de pensear melhor, na pior das coceiras da interna sarna, cobrão dos dentros, quis me fazer a sentar uma ideia, a modo carvalheiro de matutar sem tadinho. E não havendo realismismo de com que sentar um banco, planto um cá nessa casca, para acolhida em logo sob a minha caspa. Nisso é que me firmo, como quando dormido soletrando sonhos da cor dos acordados e, acordos a cor dados, apalavrei-me comigo de que Genésio não somente este-vê aqui, mas só suamente aqui está.

A minha firma-rubrica, venere-a, pus no pau que não serviu de papel, como o tal que se multiplica desde Babel. Corrijo-me defeita que com sete talhos se perfaz um pau, com quarenta e nove se faz uma canoa, então assim inteiro se parte de todo para longe do mal, e do sal se revolta à sonhação do meu gosto, a docicada uma formigando o rosto, a distar disto que bem seteselado erava nas minhas escuressencias de antanho, a pouca elípse. E quando o grande rio foi minha raciocinura, imenso e sem outra mensura que esse imarginário de assentar o poeirão internado no mim e o nominho de tudo, dessas memórias, é decerto CÚ, pois de esperto sonhei desperto com eu mesmo e minha bunda sentardos arvorando a vida do conhecimento e o conhecimento da vida para um e outro aladinho como você levar apolinizando por aí este, o um recado: que mesmo de pé nonada eu estou sentado no firmamento, que o meu CU é CÚ, tem assento.


25 de abril de 2013

anatemancipação

toda metáfora é metade
e dura fura cada áfona plêiade que evade
que
chic é ser maudit Poète
a declamar com chiclete
se vós exilados de Babel
ouvis nesta voz de papel
que
toda paráfrase parafusa
e gira e pira cada crase se abusa da musa 



10 de janeiro de 2013

Resoluções de (ano) novo




Não me deprimir com tudo aquilo que normalmente alegra
Jogar muito xadrez, adotar um gato preto e não pensar em viajar
Chorar menos, exceção aos Bergmans que confirmam a regra
Ganhar algum dinheiro, nem que para isso seja preciso trabalhar

Ir mais ao teatro, não ir menos ao cinema, ou reciclar relógios
Fumar apenas depois de comer e comer com mais frequência
Ser menos territorialista, dividindo meu espaço em episódios
Parar com as aventuras e tentar suicídios com mais prudência

Beber água e dormir, para dar uma variada ou mesmo sobreviver
Arriscar-me a discordar de Nietzsche, Cioran e Schopenhauer
Nunca perdoar e nunca capitular, e, sempre que possível, esquecer
Aliviar nos assuntos, sem no entanto incorrer no Flower Power

Nunca deixar a cor me distrair da profundidade em Van Gogh
Fotografar somente em P&B para enxergar mais com menos cores
Deve ser urgente reler Huidobro, reouvir Monk, rever Herzog
Afastar-me das criaturas que costumam se aproximar de criadores

Escrever menos e ler menos ainda, e, falar e ouvir, jamais
Legar à posteridade uns quinhentos nus frontais, enquanto duro
Amar mais através do sexo do que foder amando demais
Evitar relacionamentos à distância, sobretudo com os do futuro 


6 de dezembro de 2012

este poema sobre a cama



com todo o seu verso deitado nos lençóis em folha
essa musa de palavra dada por literatura
cumpriu ser despida de prosa
e lida ao pé da letra da cama da página à escolha
porque é bem feita de metáfora a gostosa
a olho nu tesuda poesia pura

penetrável por todos os lados
e em todos os sentidos obscenos
com ritmos e metros rimados
é uma heautontimoroumenos
se joga como um lance de dados
prova em si todos os venenos

o mar íngreme das escaladas
no trajeto do sol de lentejoula
a eclipsar réplicas
lar de líquenes as namoradas
cujo muco e dialeto de crioula
entendo no dente
um par de ímpares baforadas
no suco concreto de papoula
para o ápice épico

e cada quase êxtase conjurado no sexo
dentre as rugosas
separa lisa se paralisa
no pau do amado em anexo
quando com todo teu ventre gozas
essa frase com ênfase que te simboliza

em delírio curtido em martírio invertido
na luminosa figura na numinosa altura
da macabra queda da cama quebrada


14 de novembro de 2012

Soneto de Modernidade (Pastiche do de Fidelidade)



Em ludo ao meu leitor soarei barulhento,
Gritante e com tal apelo, para seu espanto
Que a esmo na sintaxe do pior esperanto
Nele se encaixe menos o meu fragmento.

Quero roê-lo como um cão sarnento
E se imperador hei de amarrotar seu manto
E ferir seu siso e derrubar seu santo
Para o meu gozar ou o meu experimento

E afim de que com tal alarde me censure
Quem cabe o recorte, deguste a que salive
Quem gabe essa versão, finde quem trama

Possa eu sobreviver como autor (que vive):
Que não boceja autoral, rosto que difama
Mas que verseja esquisito enquanto rasure.