TRANSATRAVESSADOS

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4 de agosto de 2012

Visita ao Sono

A entrada não é gratuita, mas barata, e se cobra simbolicamente.

Tomara que remédios? Tomara contra os tédios?
Tomara o vermelho que sim ou o azul que não?
Gregor Samsa ou o grego Tifão?

Passado o detector de metais, se nada de mais estiver presente,
cegue-se de olhos no guia do futuro para trás, e vou na frente.

A orientação essencial,
de que aqui as coordenadas egocêntricas têm valor nulo,
basta para nos nortear:

À esquerda são os fundos,
e ali as sobras de arte da Sifilização Acidental. Descontraiam-se.
Atrás fica o teto, até onde a vista alcança. Cuidado com a cabeça.
Acima há bancos onde a poupança pode descansar, logo à frente.
Adiante temos o chão. Por favor não pisar ali.
Abaixo a direita! – grito, entre outros ruídos. Fica proibido tocar
                                                                 no silêncio de ouro.

E antes de voltarmos ao ponto de partida, a praça de alimentação
aos que cumpriram nossa determinação: não entrar com comida.

A saída de emergência será através da nossa loja de conveniência.
Espero muito em breve poder revê-los
para qualquer outra visita monitorada a um dos meus pesadelos.



21 de julho de 2012

Lido com teus olhos


Entre a aflição de sorver vertigens e o prazer de insuflar miragens
não possuo tempo de dormir e apenas sonho
porque a minha paciência latejando observou
o esvaziar de seus olhos até não mais não ver.

Nada aparece dentro embora tanto seja visto
e pela leiga vidência dos que olham ao redor
diversas vezes em pleno silêncio de um cimo
                                                                 ouço (essa voz cega
                                                                  ler) e sei ser usado.


12 de julho de 2012

Não Ficção

Loucura não... Literatura; ainda que me digam ser uma louca literatura. Começa assim: Antes de mim o sonho, que é de onde vim. Para onde voo? Para o céu seco dessa cidade mapeada na minha cabeça em repouso na palma da mão, ao redor de qualquer dos sóis com o nariz quase sangrando e uns gostos comprimidos na boca. Sim, meu caso é ou pode ao menos parecer mesmo curioso. Uma camada espessa de pré-história no ar, haja vista a grande nuvem de pré-apocalíptica poluição que se inala nestes dias, uma droga pesada de nuvem carregada por mim de estrondo a pairar no horizonte de eventos além do olhar; nada mais e nadas amenos do que poeira das eras, partículas de dinossauro, ou, tão somente, tempo em pó.

Imagine essa fauna fantástica ao redor. E eu de pijama.

Os carros, essas belas máquinas de ir dentro para frente, filtrando em quatro rodas os grandes répteis de outrora, relançando-os na atmosfera. Paira mesmo a própria ocasião sobre nós. Canto tanto espanto... veja só: consumismo e objetos de apego, os diversos tamanhos de brinquedos. Um carro ali leva uma menininha que tosse, convulsiva, segurando o seu dinossauro de plástico. Que formidável ironia!

Sorrio um pouco disso, já satisfeito, mas não é hora ainda de conhecer a saída.

Os automóveis são em sua maioria pretos, pratas, cinzas e brancos. Os pombos também. Há quem diga que são nocivos à saúde do homem, mas não me incomodam, com exceção das buzinas, que me tiram a paz. Levanto-me do banco do parque (onde mato em legítima defesa as minhas horas de entidade desperta, vigilante reformado que sou aqui) e ganho a rua. Pego um branco. Menciono o destino e ele gorjeia alto, no que os demais abrem caminho, céleres, em revoada.

Esse sonho é um daqueles que eu podia ter até acordado, analiso.

Todos os olhos do brasileiro (pelo sotaque) que dirige se dividem entre o para-brisa e o retrovisor a me encarar o quanto permite o trajeto. Uso ósculos de sol redondos, espelhados, e me pergunto, mentalmente, o que ele vê em mim. Pura reflexão? Incomodado, tiro detrás da orelha uma mecha de cabelos e cofio a barba, idiossincrando os gestos que não tenho, e os pelos todos que de fato tenho parecem se arrepiar sobre a cama do meu quarto, onde devo estar a dormitar. Pergunto a ele se eu posso fumar. Ele fala baixo, ou pensa alto: “Melhor não, já que provavelmente vai mesmo pular a parte em que teria de me pagar pela corrida.” O que acho que ouço assim traduzido, e respondo: “Melhor sonhar que tenho dinheiro para pagar, mas nem precisava, porra! Que o sonho é meu, cara... Toca isso em bandeira dois, que aqui sou deus. Até podia ir voando, mas prefiro ter classe.” Aperto o botão que faz ele apertar o botão que abre a minha janela, automaticamente. E acendo um Lucky, achando-me com sorte. Ele liga o rádio para que uma Brigitte Bardot agonizante me sugira à mente a couple of acasalamentos. Pergunto se tem jazz, o que ele entende chess, dizendo que “Sim, gosto muitíssimo, mas não tenho com quem jogar.” "Toca para outra estação", digo-lhe, no que começa a nevar. E sai Bird, com a fumaça, pela minha janela. Ele escorrega a máquina até conseguir um roque meio tupiniquim à esquerda e me dá seu cartão, junto com o que sobrou da minha onça pintada. Diz “gracias”.

É hora do almoço, e meio dia é sempre verão para mim. Faz 232,7777777777778 °C.

Peço uma Original, mas não dessas de hoje, que são cópias, e fico tomando bem devagar, de canudinho, a ler uma revista em quadrinhos enquanto demora o meu cheese-colesterol. Estou no quadrinho grande da penúltima página, no canto inferior direito, bem desenhado assim colorido e de meio-perfil, que é o meu melhor ângulo, sentado no balcão sujo a ler a última página deste mesmo gibi, e embaixo está escrito “...continua na edição de janeiro”. Eu deveria chorar nessa parte do sonho, mas não o faço de fato; assim mesmo a balconista me pergunta se comigo “está tudo bem?”. “Apenas um pouco emotivo já é motivo”, respondo, marcando uma página qualquer como se aquele decotinho estivesse me interrompendo, no que abandono a leitura em favor do nanquim daquela pele que larga às quatro, “sim, posso esperar”.

O que fazer enquanto isso ainda não dá naquilo?

Engulo o segundo lanche com o último gole de cerveja e atravesso a rua em direção ao cinema. Um detalhe importante é que nisso sou atropelado e morro, mas daí a meio cigarro já ia começar a projeção do filme, e então me apresso mais do que gostaria. Entrego o meio cigarro que resta a um mendigo que passa e entro na sala. Fico subitamente contente porque ir assim à sessão das duas horas é tão bom, ainda mais às quartas-feiras, quando é mais barato e vazio, apesar de hoje ser sexta-feira e de eu nem ter lembrado de descrever a parte da bilheteria, motivo pelo qual analiso que nem devo ter pagado a entrada. O filme é... deixe-me pensar... alguma coisa que nunca vi na vida, talvez um Fellini novo... não... um Fellini de 1964, quando ele não lançou nada, afinal; um Fellini entre o 8 ½ e o Julieta dos Espíritos... sim... um filme genial esse Sonhar com Davi, que conta o último pesadelo tido pela cabeça decapitada de Golias, coitado... tem um macarrônico toque de Proust e tal; mas o melhor é que tem simultaneamente Masina e Mastroianni no elenco. Recomendo. Duas horas depois, saio do cinema com um sorriso e pego de volta aquela minha ponta de cigarro que havia deixado o mendigo fumar, pelo que ele ganhou um real, logicamente.

É quando a gente percebe que está sujeito a tudo nessa puta vida.

Começo a sentir as propriedades diuréticas da cerveja, da qual preciso urgentemente me aliviar, o que não faço em qualquer lugar, a menos que isso seja absolutamente necessário. Como é conveniente, procuro ir ao banheiro da lanchonete, mas está ocupado; aí volto ao cinema, onde há fila. Nada mais ao redor... procuro e não encontro nenhum lugar para mijar. Então você me dirá que “faça na rua mesmo, escondidinho, porque homem é assim e faz em qualquer lugar". Você entende e as pessoas na rua entenderiam também, certo? Mas não é tão simples, senão qual seria a graça de eu estar te contando isso? Digo que fazer num muro ou poste foi a última coisa na qual pensei. Cheguei a cogitar em por o pau para fora ali na esquina e fazer uma performance quando o farol fechasse, mijando para cima e bebendo, ato contínuo, mas a presença ostensiva de policiamento nesse dias de pagamento (era uma região com muitos bancos) me inibiu, já que eu poderia ser preso por atentado violento ao pudor, à moral e aos bons costumes, bem como estar incorrendo em crime passível de punição até mesmo pela vigilância sanitária, além do fato de que ainda não tenho licença para ser artista. O que eu faço, então? Vou até o banheiro daqui de casa, no meu quarto mesmo, que convenientemente é uma suíte, justamente para ocasiões como essa.

Aí, antes que você ache que trapaceei, escrevo aqui uma nota autobiográfica, a título de informação, para me justificar: o autor é sonâmbulo.

Então, já que estou ali, aproveito para escovar os dentes, passar desodorante e pentear os cabelos. Como se trata de um sonho, e não de um pesadelo, não estou com espinhas. Volto a me deitar, preparado para ir para a cama com a garçonete. Saindo do trabalho, ela quer ver um filme, e logo o mesmo que vi, mas consigo convencê-la, após explicações demoradas, de que o tal filme é de minha autoria, o que me tornaria não tão bem-vindo ali. Recomendando-me fazer análise, ela aceita o programa que proponho. Quinze minutos depois, estou no banco de trás do taxi do J. C. Merrick (aquele brasileiro), com a Vénus noire me chupando, a caminho de um motel.

Sonho meu, né!?

Chegando lá, só era possível entrar de carro, já que Jeanne é moça de respeito e tem muita vergonha de ser vista nessa situação a pé. Sendo assim, tivemos de entrar os três. Eu estava pagando a corrida, em bandeira dois ainda, mas, não contente, J. C. propôs ir conosco até o quarto, uma proposta da qual mui humilde e heterossexualmente declinei. Ao invés disso, propus a ele que fosse em meu lugar, pelo que me pagaria bandeira dois. Jeanne protestou, mas aceitou fazê-lo desde que recebesse de mim por isso, para o que combinamos bandeira um. E assim, para encurtar a história, passei a noite toda ouvindo big bands no carro, a fazer planos para expandir o recém descoberto nicho de mercado, o da cafetinagem com taxímetro e, para encerrar, digo que acordei sem o dinheiro do negócio no bolso do pijama, o que é um dos principais riscos dessa moderna profissão, mas ainda assim pretendo investir no ramo.

O dia amanhecia e eu precisava pedir as contas no serviço para ter o capital necessário.

Meu chefe não quis acreditar, chamando-me de louco. E, só para me sacanear, me demitiu por justa causa, recomendando-me um exame da cabeça, com o que o presidente do meu sindicato e o juiz responsável pelo meu processo trabalhista também concordaram. Nenhum advogado quis me defender, e a minha autodefesa inexperiente não foi suficiente para me livrar do hospício, ainda mais após o resultado dos exames ter servido de prova principal da acusação no meu caso. Pois é... Hoje, 15 de dezembro de 2010 é meu aniversário de 31 anos e aqui estou. O que posso dizer? Sou muito bem sucedido e realizado nessa profissão que exerço durante oito horas por dia, como qualquer bom cidadão, ainda que ela seja ilegal e considerada nociva à sociedade, pelo que eu mesmo me sinto também um pouco em dívida, motivo pelo qual escrevo poemas e outros textos, como este, que publico de graça aqui, apenas para o deleite dos meus colegas de diagnóstico, que como eu também se declaram inocentes. E todos têm razão.


2 de julho de 2012

casa de poeta

a   m i n h a   c a s a   n ã o   s e   c o m p r a   o u   v e n d e
o   q u e   s e   n o t a   a p e n a s   d e p o i s   d e   e n t r a r
é   u m a   h a b i t a ç ã o   q u e   d e   m i m   se   e s t e n d e
c o m o   s e   v ê   n e s t a   e s c r i t u r a   d o   m e u   l a r


m e n o r   q u e   c a d a   d e g r a u   é   a   e s c a d a
s u a s   g r a d e s   s ã o   d o   t i p o   q u e   l i b e r t a
c o m   a   p o r t a   d a   f r e n t e   s e m i c e r r a d a
e   a   p o r t a   d o s   f u n d o s   e n t r e a b e r t a


c o m   p a l m e i r a s   o n d e   c a n t a   o   s a b i á
u m   n o v o   s i s t e m a   d e   e s q u e c i m e n t o   a   g á s
e   v i s t a   p a r a   t u d o   q u e   j a m a i s   c e g a r á
o   q u i n t a l   d á   f u n d o s   p a r a   o   l a d o   d e   t r á s
o n d e   s e m p r e   s e   s e n t a   c o m i g o   o   s o f á
p a r a   t o m a r m o s   c a d a   m a l u q u i c e   d e   c h á s


é   c o i s a   d i á f a n a   m e s m o   s e m   v i d r o
t e n d o   q u a t r o   q u a r t o s   p o r   i n t e i r o
o n d e   f l u t u a m   a   p i s c i n a   e   a   h i d r o
u n e   t o d o s   o s   s e x o s   s e u   b a n h e i r o


n a   e s t u f a   o r a   é   v e r ã o   o r a   é   i n v e r n o
n a   a d e g a   m e i a   n o i t e   e   n o   p o ç o   m e i o   d i a
e   a o   r e d o r   d a  c a s a  t a m b é m   m e   i n t e r n o
a   e x p u l s a r   t o d a   a   m i n h a   c l a u s t r o f o b i a


d e   p o u c a   q u i l o m e t r a g e m   a   g a r a g e m
p o s s u i   u m a   e s c a d a   d e   d e g r a u s   v o l á t e i s
c o m   s u a s   j a n e l a s   f e i t a s   d e   p a i s a g e m
d a n d o   p a r a   o   j a r d i m   d e   p e r f u m e s   t á t e i s
c o m   u m   h e l i p o r t o   p a r a   a   c r i a d a g e m
e   c a m a - a c a d e m i a   d e   g i n á s t i c a s   f á c e i s


s a t a n á s   a i n d a   c a b e   b e m   n o   p o r ã o
a r r a s t a n d o   s e u   r a b o   de   b i c h o   m a n c o
o   e s p í r i t o   s a n t o   d a n ç a   m a l   n o   s ó t ã o
r i s c a n d o   o   a s s o a l h o   a   u s a r   t a m a n c o


é   o   s e t o r   d o   m e u   i n t e r i o r
é   o   c e n t r o   d o   m e u   d e n t r o
é   o   m u n d o   d o   m e u   f u n d o
é   o   p r é d i o   d o   m e u   t é d i o
é   o   r i n c ã o   d o   m e u   b r a s ã o
é   o   m e i o   d o   m e u   d e v a n e i o


n o   s ó t ã o   c o n v e r s a m   l u z e s   a c e r c a   d o   p ó
e   i n v e j a m   o   s e u   s a b e r   s o b r e   p i
n o   p o r ã o   as   p a r e d e s   t ê m   u m   l a d o   s ó
a p e s a r   d a   t e r r a   t o d a   a t r á s   d e   s i


t e m   o   h á b i t o   a   s a l a   d e   a l i   n u n c a   e s t a r
o   b a n a l   é   o   b a r   e   s u a s   g a r r a f a s   e t é r e a s
é   i n t e i r a   c o m e s t í v e l   a   s a l a   d e   j a n t a r
n a   b i b l i o t e c a   t e m   c u l t u r a   d e   b a c t é r i a s
o s   v e n t o s   r e s p e i t a m   o   a v i s o   d e   p a s s e a r
e n q u a n t o   a s   p a r e d e s   n ã o   s a e m   d e   f é r i a s


o n d e   c a d a   â n g u l o   é   a r r e d o n d a d o
s e j a   a l i c e   o u   c i r c e   s o b   o   a l i c e r c e
e   d e b a i x o   d e   t u d o   e s t á   o   t e l h a d o
c o m   s o u v e n i r e s   q u e   a   g e n t e   e s q u e c e


t e m   p l a n t a ç ã o   d e   l a v a n d a   n a   l a v a n d e r i a
a p r o p r i a d o   o   t a m a n h o   de   o v o   d a   c o z i n h a
o b j e t o s   i m p o s s í v e i s   e   v o a d o r a   t a p e ç a r i a
e   a   g r a n d e   s a c a d a   d o   q u a r t o   é   a   v i z i n h a


p a r a   f a l a r   s ó   d e   p o r t a   p r i n c i p a l   h á   d e z
é   u m   m i s a n t r o p o   r e t i r o   e s t e   c h a l é
o n d e   a p e n a s   s e   e n t r a   d e i t a d o   o u   d e   v i é s
o n í r i c o s   s ã o   c a d a   b a t e n t e   e   r o d a p é
e m   c u j o s   i n t e r v a l o s   s e   r e s p i r a   a t r a v é s
c a s a   f e i t a   d o   q u e   s a i   p e l a   c h a m i n é


o   m e d o   d o   m e d o   f o i   a l i   e m p a r e d a d o
e m   m e i o   à   m ú s i c a   d o s   s e u s   v i g a m e n t o s
e   e s t o u   a l i   m u i t o   b e m   e n c l a u s u r a d o
n e s s a   o b r a   d a   n a t u r e z a   d o s   c a t a - v e n t o s


c o n s t r u í d a   c o m   e s t r u t u r a   d e   p o e s i a
e m   s u a   m a i s   q u e   p e r f e i t a   a g r i m e n s u r a
p o r   a r t e   d e   a l g u m a   o u t r a   g e o m e t r i a
e s c r e v o   d o   m e z a n i n o   a o   r é s   d a   l o u c u r a



26 de junho de 2012

inf(lux)o


para Claudio Willer

“Sweet sweet sweet sweet bulbs grow in m' latest garden
[...] Come talk freely in the garden of m' lady“
CAPTAIN BEEFHEART

saio do museu da minha língua
quando disso ouvi meu pensamento
dissolutamente e dissolutamente
a ascender os pulmões com pirulitos de câncer
nos foguinhos azuis de bumba-meu-blues
em meus fones de canção e olvido
com que cruzo o rush com a avenida na garganta seca
de uma idade relativa a doar
aos pobres que abundam e podres moribundam
antes d’eu penetrar no público dédalo da provocação
o Jardim da Luz e vírgula
a me reiniciar na verdade do Já alascincodelatarde
quando me corto em particípio sentido horário
a tentar pescar com minha vara de água
naquela velha agádoizó o que os dois olhos não agarram
já aquela se volatilizou do brusco buraco do silêncio
que estes meus furolhos lacrimais alamedram
entre as árvores altissonantes do vento gerúndio
das fagulhas-farpas que nos farrapos são caos e efeito
a encenar um incêndio teatral de trovões e fosfenas
quando me vira a cara o busto-fantasma do risorgimento
que me faz farra ou pilha
como o peixe solúvel que é este Garibaldi
coroando o paisagismo nouveau d’outras fontes
se com isso tutti importas giratórias da recepção
na ágora ou nuca da sua cabeça
bronzeada de fraternidade
quandonde as aléias sem azaléias
me voam raso e/ou taxiam tortuosamentindo
rumo à gruta-agrura artificial
que já a curto prazo se avista cansada
de ser buraco de se descer horizontológico
quando o sol se põe atrás da estação no inferno
ao objetivocaso mais grotesco
do que o que nos grita essa gruta bocarrazão
Deméters por segundo sombra
donde o cimo tem uma altura-queda
para o ar marchetado de aves rupestres
criançando as brincadeiras
par A.k.a. Bar com o juízo de Deuzebu
entre as putas velhas mais gordas do que o clamor louco
enraizadas no mundo d’arcana décima sétima hora-treva
da árvore cujo fruto é ainda outra árvore
que dá frutos em miração do caminho
do parquinho de sexofone
semeado de preservativos da véspera
cujos velhosábios peripasseios de Tirésias
e más companhias ilimitadas
das estatuazinhas aos quatro ventos musicantes
que senti nelas a guarda e a túnica baixa
que as oito leminiscatam cardinalícias ao arcano redor
do verde-Cézanne mais central e tão depressionista  
de carpas e cágados e tudo que nada a girarodar
nos dez ligados chafarizes na hora e na vez
do chá inglês fazer risos antes que eu me esqueça
ante os alvos tesões em branco em cada pau incircunciso
doente de ouro ou romances de copo e espodo(mancia)
nos quais delira cada uma das verves
das retaguardas artísticas ao passar
no alto capitaneando o coração de carne
por sobre a mágica banda no coreto  
das aposentadorias anacoretas fazendo e feito dominó
quando da passagem do psicotrópico de capricórnio
soterrados por estas minhas folhas
no último anil da abóbada celeste
esporeando o meio-pau dos suicidas
que castraram a própria lida noutro buraco
e eu a cavá-lo por um reino troco de pé e demão
ao verouvir num au revoir de pássaros
o rubromoinho de can-cansaço
da jovem mulher rara a se aproximar de mim
e ela minha truta se quer ar agonizar
camponesa do Pari que é
a me replicar cada ditirambo
do principal clown-dio da poesia brasileira
que vejo bem ali n’adjacência alucinante da cicatriz de X
que ela tem na brecha da face visível
que me desmascara e até dá algum barato no labirinto
quando às seis os apitos da segurança tentam avisar
este par que fecha


15 de junho de 2012

Transatravés

Sente a tração textual 
este leitor ontológico e mamífero: 
seus olhos de ventania com fome, 
e a pintura, sua irmã, 
diriam estas ideias com o formato das cores; e nós, páginas, 
afirmação própria de escuros sons, 
tatearíamos no tempo outra ficção 
revinculada ao som de nosso nome. 

Dito bem menos grego do que falaria um copo d’água, 
com nenhum outro tema de ficções, 
conceito de dúvida, fúria ou mágoa, 
cada minuciosa cor que não é nada, 
como imortais mudariam de pensamento e de paixões. 

E se a língua em que se exercitava no jogo 
saísse para buscar alguma resposta 
e no erro lambesse os dados a lhes besuntar melhor vício, 
encontraria remédio a humanidade 
ou bem astros por trás de seu rosto 
que sem dúvida questionaria ainda a fundo. 

Recomponha tua figura, 
porque não se referia a conceitos abstratos, 
a chamativa cenografia que outro lê “amor” 
e se deixa iniciar pela casa deserta 
a partir dos labirintos de tabloides, 
mas em começar sua carreira com o sonho, 
órgão não oficial de alguma seita de pedra 
pois nos alimenta a voz do talvez invisível. 

Aí aprendeu o pouco latim de um rito elementar, 
mas algo nele, como era de se esperar, 
estava fora de época: a sua língua era? 

Alta era a tarde, e esta pedra como a obra de todos, 
só fazia ainda indagar sobre Deus, 
ou nem mais quem é nem o que é, 
mas já onde se acha e como evitar, 
se em alguma escadaria de templo, 
se nesse inumerável pó do planeta, 
se em cada própria questão, como “eu sou pergunta”. 

Estávamos nos anos finais de um século prestes a reincidir, 
e, logo depois, imersos na experiência mesma do se repetir. 

Saí em busca de meu crepúsculo 
como serão na recordação os rostos com uma rua, 
esta secreta possessão inocente, de puro músculo, 
se às vezes a tentação de traduzir para verdadeiro 
trai-me em português brasileiro: 
 jamais se possua! 

Conservei o meio natural, 
já que a verdade é que existe o caráter nele, 
obtendo qualquer efeito como de revelação 
e, detrás do indivíduo, ninguém verdadeiro 
senão certo estado da arte 
que tem seu preciso lugar em não sair dele 
ou no nunca aprofundá-lo. 

E o estilo de todos os mestres confirmou a sua suspeita. 

Quiçá não por meio, mas inteiramente maneiras do cantador, 
no caso um de modesto dialeto, 
homens e mulheres tiveram na mão este interlocutor humano 
que invocou (com as máscaras) sua alma, a de ser a descer só 
nesta sua experiência de mente impressa. 

Um rascunho escritor no início é onírico e vaidosamente bruto, 
ao qual terá dado razão se aceitou tal destino 
e, a poder, vazão, 
e só houve nele, ao despertar, os idiomas de sob suas pálpebras, 
inculto ainda, e nem sequer um banto ou tupi, 
o que para nós daria na mesma, 
mas o primitivo não podia estar entre paredes, 
pois a eternidade deste mundo é muito vulgar 
para a complexidade das feras. 

E seus palavrões não sabiam cessar (e de sono eu não comento, 
não para desonra dessa imaginação 
cuja especialidade eram os porquês, de interrogação sua pose), 
e aí renunciou ao como pelos quês, 
e se disse o que dito, o depoimento emitido no outono de 2012. 

Sua orelha está onde houver música, 
essa sentença encantada de demônio, 
vertida e replicada por uma verdade 
que desde sempre esteve subjacente 
às mil falsas senhas com que sonhas, 
e sua noite, uma vez desensurdecida, toca-nos a boca pequena, 
  e a nos beijar a cantilena 
a sua língua entregou-se à prática número dois, 
para a qual não podia saber estar predestinada. 

E, íntima vítima, exagerou gerações, 
já que o passado e o futuro em algo pressentidos 
na divisão da visão levada ao termo, 
induzidos a isto talvez pelo ser todo, 
no início tantos anos multiplicaram até o infinito, 
porque a máquina o fez vir com pretexto inverso 
àquele insuspeito que habita o eleito. 

Certa vez substância terna, nossa, esta voz imanente, carnal, 
enfiou um de seus inúmeros braços na página da minha testa 
podendo significar aqui um monstro, 
e atraiu-me para sentir tal inconsútil 
que sentado áspero, acocorou a obra 
como no ar outro véu de superstição 
 ou menos, uma sombra, 
ou este silencioso livro (ruído negro) origina suas sensações, 
algum fogo e logo certa ideia de dor 
 e calor e luz, e mais luz. 

Parte imortal, iniciou-o este tal não-método no todo-antídoto, 
uma mitologia simplíssima de besta 
que orate fez o primeiro movimento 
desordenar o divã a divagar seu afã 
como escolas abertas da nova idade, 
quando celebraremos o nosso ofício interno, 
aonde poderemos ser um, e levados 
a última potência, 
pois só despertaremos por distração, 
o que aqui se afirmou sem metáfora, que livre depreender-se-ia, 
que isto feria não, 
euforia. 

E não sede mora onde ocupo pouco, causo liquefeito, 
a mão se demora nas cordas e palavras cantam greve 
acompanhando-se à guitarra, com sol e dó das coisas, 
bebida babélica nas molas do salmo ou do impossível 
com que passarinho faz escalas entre nossas pestanas 
pois já não tinha sentido para as repetições do horário 
pois isso excederia a nossa incalculável compreensão, 
o que, previsivelmente, seria tão apenas inacreditável 
e as duas imagem, segundo se sabe, são uma só coisa. 

E, ao contrário, 
   este meu trecho de conversa a oeste 
acontecia durantemente as coisas em outras palavras: 
e já aconteceu, 
  sempre, 
no liso espelho de gravíssimo cenho 
cuja secreta estranheza 
(de menos um realismo, entrevisto onde o procuram) 
de patafísica a nos indicar a perfeita prisão de tempo 
na matéria do copo, pela errada circunstância da hora 
que tomada de um gole, 
abusou de mim, este tu de propósito 
que cumpre suprir ao tom ausente com o tom silente 
da imagem e do som e da ideia que possam ser úteis, 
e não fatuidade, 
quando o rosto olhou-o no assombro 
e duvidou reconhecer, naquela noite, truco do tempo, 
e ainda desde a madrugada seguinte, 
que caberia ensaiar as cores e formas 
do nunca rubricado no meio do peito. 

Como se já fosse uma única extensa metafísica 
na única linha em azul de leve, 
naquela urgência de ter a ideia de tempestades, 
começa a observar que pode a tal noção de nós 
(no século XXI) precipitar outro intervalo certo 
em escala mínima, quieto, exceto de si para dó, 
 ou jogo outonal 
sobre folhas secas e sem saber 
 ao cair com elas 
 que é, no início, 
 morrer de amor. 

E, penetrantemente, 
com o medo em riste, 
olhando-o de frente, 
perguntou ao criador qual era o seu nome, 
e ouviu que apenas criação é o que existe 
e que era hora da criatura estar com fome 
e comeu descrente. 

Isto equivaleria a dizer no máximo 
 (sempre dizer no máximo) 
que quem nos escreve nos deu esta resignação por hexâmetro; 
 mero utensílio a cabeçorra 
que demais amais assim tão viciosa 
  porque nos sabe à música; 
que ela voltou da sala de sem-razão para ser nossa antagonista 
  em seu alcance de Occam; 
que a escrita de contrários não fura 
o que transverberado está; 
e que isto, no fim, a náusea ardente de rever o que escrevemos, 
só está em quem é escrito.