TRANSATRAVESSADOS

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11 de julho de 2013

parabolae

lagos de sentido e alcatrão, 
saídas de falsas fechaduras, 
nódoa, poças de escuridão, 
tipos de arcaicas máquinas, 
cabeças com chifres, hastes, 
celibatos de linhas impuras, 
manchas de vácuo ou nada, 
oposto essencial, contrastes, 
limiares para furar páginas, 
arca anárquica de ateísmos, 
monólito ao todo, em cada, 
as palavras são vis abismos 



27 de junho de 2013

quatorze questões de múltipla escolha ao redor de um soneto (gabarito)

o que aconteceu antes do começo? 
(  ) sempre parto da ideia da dor 
(  ) nada ainda estava do avesso 
(X) tudo, só até o fim anterior 

houve uma entidade criadora? 
(  ) creio que todo deus é incrível 
(  ) e talvez ainda uma tradutora 
(X) é destrutivamente possível 

de que é feito o ser humano? 
(  ) de um estranho senso de humor 
(  ) do maior óbvio ainda arcano 
(X) da mínima fração do autor 

como foi que chegamos aqui? 
(  ) sentados no sentido conversível 
(  ) ainda não passamos do croqui 
(X) através da linha reta ilegível 

qual a razão final dessa vida? 
(  ) o maior monumento ao ruído 
(  ) a busca por não chegar à saída 
(X) o contínuo se achar perdido 

o amor que sentimos o que é? 
(  ) o conteúdo que cabe às pessoas 
(  ) das carnes de demiurgo o filé 
(X) a má cola entre as coisas boas 

por que precisamos da arte? 
(  ) ela dá graça ao que tens lido 
(  ) para desumanizar-te 
(X) para nosso tempo cumprido 

estamos no mundo sozinhos? 
(  ) das popas não se vêem as proas 
(  ) a solidão tem outros caminhos 
(X) no silêncio nunca nada ecoas 

este universo chegará ao fim? 
(  ) tornará a direção passageira 
(  ) o termo causa efeito ruim 
(X) aonde tal fronte ir a fronteira 

o tempo possui um limite? 
(  ) o da hora de afinal saber 
(  ) como o atraso que se admite 
(X) duro só estando em haver 

qual é o limite da liberdade? 
(  ) é preciso explorá-la inteira 
(  ) basta encontrar sua metade 
(X) a cativante vida prisioneira 

por que é que nós morremos? 
(  ) é a última forma de lazer 
(  ) apenas porque podemos 
(X) para essa experiência viver 

existe uma vida após a morte? 
(  ) voa ao vento a vivaz poeira 
(  ) nada que para lá transporte 
(X) se apôs à última a primeira 

a eternidade pode terminar? 
(  ) quando a questão morrer 
(  ) se dermos chance ao azar 
(X) logo ao conseguir vir a Ser 




20 de junho de 2013

No exame das páginas, ler meus olhos a fundo



Sobre meu nada diuturno, eis as pátinas, assumo:
lendo todo o tempo, fumo muito e pouco durmo,
sem saber se há isto que na vista aja ou se o finjo,
o que raja de vermelho o branco dos meus olhos
tal como tinjo de vermelho o branco das páginas:
ou naturalmente rajada ou artificialmente tingida,
seja em franco espelho, seja sob vernizes e óleos,
não é como leio a vida, mas como faz por ser lida. 



4 de abril de 2013

Emilly


A minha mulher tem dois éles
e se desloca elástica em mim
                                              e voa para dentro do próprio sangue
                                                                por fora do corpo e de si
                                                                             quando me ama
                 e dança.
Jovem virgem que lê e dança a mais bela
minha namoramada mulher
quer me desposar
                            quer-me na primavera.
Quero-lhe o hímen, a mão, o sim e o sim.
Quero-a então para sempre só para mim.
Tira-me do sério (ó Destino)
e para dançar fora dos livros. E ela lê e me lê com éles nos óculos-
                                                              ósculos tranquilométricos
e me ama. Amo-a. Ela tem asas nos olhos e nos éles do meu amor 
sem calcinha. Ela é só minha.
Bela musa virgem se isso é possível não é possível depois de mim:
ela a quem sempre amar à primeira vista,
sangrada pelo poeta-plateia,
                                              volta ao corpo a escrever nua no ar
                                              o poema que com dois éles me cala
                                              ilegível no infalível fim que se infla
                                             com quem é o escolhido a deflorá-la.
Ela a mulher artista a melhor conquista a única que desejo cantar
                                               pois este fauno alcançou sua ninfa.



28 de março de 2013

Círculos de Confusão


Para obter o ângulo certo
ao procurar o dia perfeito
era preciso olhar de perto
as distâncias que espreito?

Haverei de ver brilho tão alheio
ali em baixo quanto lá em cima?
Caberá aqui em mim se no meio
é tão menos luz do que enzima?

Onde estarei mais quente
se dispenso qualquer dica
que me faça ver de frente
a solidão que me duplica?



7 de março de 2013

Seres, Sóis e Sinais


Sonho em me aculturar
por um contato estreito
com um amigo primitivo,
porém não consigo achar
o sujeito de estudo vivo.

E entretanto,
infelizmente,
há mais morto
do que vivente
e posso herdar,
na era moderna,
somente a cultura
daquele velho horto
escrita na caverna-lar
que figura em seu canto.

Ir pelo bonito sítio rupestre
repleto de estranhos petróglifos
a céu aberto e parcialmente submerso
em afloramentos rochosos areníticos, graníticos.
Ler em páginas de pedra os sonhos esquecidos,
fotodocumentados, georreferenciados,
uma vez escritos diante do fogo
no escuro antigo do tempo.

“A arte primitiva requer restauro?”
“De origem indígena pré-colonial,
é a forma pré-histórica
de comunicação visual
alheia a nossa era pós-histórica?”
“As linguagens gráfico-simbólicas
da comunidade autora
serão tão hiperbólicas
como uma nova arte promissora?”
Interrogava-se o Saussuressauro.

Na caverna 
nada o-
mito.


28 de fevereiro de 2013

As linhas


Se você acha que eu nasci ontem, está certo, hoje disse, 
e, pelas minhas mãos, não morrerei amanhã, de velhice.
Lê-se apenas um conselho estilístico para quem escreve: 
                                                                          seja breve.




23 de novembro de 2012

Corpo





É a massa abjeta de sentidos e sentimentos,
excremento dos deuses, barro informe do não-ser deus.
No umbigo dessa ideia, por alta casuística,
estamos menos adâmicos, menos edênicos,
mas mais humanizados, demasiados.
Somos o universo no centro do corpo,
a coisa de todas as medidas.
Em sua corporalidade, fisicalidade, é o próprio estar do ser.
Nossos corpos são o muro da metafísica,
o alimento da guerra,
a pátina do tempo.
O nu, único realismo possível ao corpo, é atemporal;
a despeito de toda anedótica moda e cosmética efêmera.
É justamente em sua imensa vulnerabilidade
que reside sua maior força,
a de estar provisório e de ser impermanente,
passageiro, ao mesmo tempo em que é transporte.
Sua decrepitude o torna eterno, sua tangibilidade o faz icônico.
No corpo, a banalidade o faz inédito,
e o desinteresse que nos causa a nossa familiaridade com ele
é a fonte mesma de toda sensualidade.
O corpo humano é composto pelos quatro elementos:
a água, representada pelo hidrogênio
(pelo que se tem sede e chora),
o ar em forma de oxigênio
(aquilo que se suspira),
a terra como carbono
(aquilo que sobra no final),
e fogo, representado pelo nitrogênio
(com cujo sal se faz a pólvora e, com doçura, o amor).
O corpo é dividido em três partes: sonho, dor e gestos.
A isso tudo se pode incorporar mais o que se quiser,
já que o corpo é escravo da mente,
embora o contrário também se verifique;
o corpo tudo acata, como uma página em branco;
ele sofre tudo, quase nunca calado, mas sempre sofre.
O corpo sobrevive a tudo,
já que quando morre já não o chamamos mais corpo,
senão cadáver.