TRANSATRAVESSADOS

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25 de julho de 2013

Um ano de diferença


Aos cinco anos de idade, por haver nascido em dezembro, 
meus pais tiveram a opção de me colocar na escola, 
mas preferiram me deixar mais um ano livre. 

Sempre fui o mais velho entre meus pares, 
e, apenas por tal razão, tornei-me hoje um idiota, 
já que cresci julgando que todos os outros é que o eram. 

Tivessem meus pais me matriculado um ano antes, 
teria crescido a julgar que o idiota era eu, 
e talvez pudesse estar enganado. 



27 de junho de 2013

quatorze questões de múltipla escolha ao redor de um soneto (gabarito)

o que aconteceu antes do começo? 
(  ) sempre parto da ideia da dor 
(  ) nada ainda estava do avesso 
(X) tudo, só até o fim anterior 

houve uma entidade criadora? 
(  ) creio que todo deus é incrível 
(  ) e talvez ainda uma tradutora 
(X) é destrutivamente possível 

de que é feito o ser humano? 
(  ) de um estranho senso de humor 
(  ) do maior óbvio ainda arcano 
(X) da mínima fração do autor 

como foi que chegamos aqui? 
(  ) sentados no sentido conversível 
(  ) ainda não passamos do croqui 
(X) através da linha reta ilegível 

qual a razão final dessa vida? 
(  ) o maior monumento ao ruído 
(  ) a busca por não chegar à saída 
(X) o contínuo se achar perdido 

o amor que sentimos o que é? 
(  ) o conteúdo que cabe às pessoas 
(  ) das carnes de demiurgo o filé 
(X) a má cola entre as coisas boas 

por que precisamos da arte? 
(  ) ela dá graça ao que tens lido 
(  ) para desumanizar-te 
(X) para nosso tempo cumprido 

estamos no mundo sozinhos? 
(  ) das popas não se vêem as proas 
(  ) a solidão tem outros caminhos 
(X) no silêncio nunca nada ecoas 

este universo chegará ao fim? 
(  ) tornará a direção passageira 
(  ) o termo causa efeito ruim 
(X) aonde tal fronte ir a fronteira 

o tempo possui um limite? 
(  ) o da hora de afinal saber 
(  ) como o atraso que se admite 
(X) duro só estando em haver 

qual é o limite da liberdade? 
(  ) é preciso explorá-la inteira 
(  ) basta encontrar sua metade 
(X) a cativante vida prisioneira 

por que é que nós morremos? 
(  ) é a última forma de lazer 
(  ) apenas porque podemos 
(X) para essa experiência viver 

existe uma vida após a morte? 
(  ) voa ao vento a vivaz poeira 
(  ) nada que para lá transporte 
(X) se apôs à última a primeira 

a eternidade pode terminar? 
(  ) quando a questão morrer 
(  ) se dermos chance ao azar 
(X) logo ao conseguir vir a Ser 




13 de junho de 2013

Consolação 13/06/2013 (lacrimogênea)

Há certos paulistanos 
que, fartos de patrão, 
não esperam milagre 
para gases mundanos, 
e preparados estarão 
se o caos se deflagre: 
são videntes urbanos, 
vêem bem a situação, 
têm olhos de vinagre. 

14 de fevereiro de 2013

Dentro embora

A sorte, discussão dos historiadores 
(logo ao fundo), dá lugar 
de palavra a este poema. 
Deus, em sonho (rudeza do animal), 
falava pelos cotovelos, de si para si, 
e só este último nada compreendeu. Tão tépido tempo travou. 

Nesse seu instante de vertigem, apanhou a sílabas 
e se achegou a elas, benevolente, 
mas a tremenda resposta (cólera) 
do algum valor filosófico é o que acrescenta com certa pressa: 
foi como se o tivessem rompido, o corpo que se partiu de frio, 
em um mágico alfabeto de fato – castigo eterno para os maus – 
em que ele podia ser habilidoso 
e o que sentiu naquela faquinha 
e o que selvagem tem me usado (oculto seu nome) 
para o que confrontou o interno 
com o dogma, e se ouvirá a voz 
querida deles na fumaça agitada, 
não havia senão o pouco assim, ou nos decifrando. 

O que já se iluminou submetido a mil operações mágicas, 
o que dá para anos de indecisão, procura (não decência). 
Refiro-me aqui à estrita noção – paradoxal: 
a crítica em geral foi seu cinzel. 
Ele considerara cada alternativa, desde as letras 
destinadas a nos castigar diante das suas aspas (seus chifres), 
até certos períodos justificados,
passando pela corrente de saliva a se urdir no que bebo 
para engolir com fé o placebo. 


  

8 de fevereiro de 2013

estrelinha



esquecer deus*, essa Coisa
tão sem notícias
desde a nenhuma aparição
(e fazer Fogo, esse dogma
sem outra obrigação
a não ser transformar tudo
que não é à prova dele).
fundar religiões da rua
segundo terceiros,
e atravessar ainda outras tábuas da culpa
com rabiscos de sesta
com pouco ou mesmo nada de inocência
com cautela para não, e para não apenas.
estar como a lua que já se insinua de dia
(matar a fome, matar a fome
– a nossa filha sempre jovem
e que sempre volta –
diante da porta da velha era,
diante da era da porta velha);
e odiar voar de avião ou de imaginação,
mas amar ser pássaro que põe pássaros.
ser malcriado, e sobretudo,
jamais repetir isto que sou, por vaidade.


* de fato, 
só sei ser 
dessa excelência de ignorância, creio eu; o que cria,
substancialmente cambiante para os vossos gostos,
um vaivém de hábito e vicissitudes, conforme sou informado.



 

18 de janeiro de 2013

Para quê?




Para estar inquieto ao termo da iniciação

a que teus escravos olhos me submetem.

Para que com o curto fio da liberdade

tu possas fazer corrediços

laços de vontade.



Para que as regras que falo

deixem de ser o fluxo

do meu idioma.

Para encontrar até a última interdição

e perdê-la na tradução.



Para que os que sabem dividir

não abram mão do resto.

Para separar de uma vez as famílias tão perfeitas

que prescindem de alguém

infamiliar tal qual tu.



Para compartilhar os dois silêncios

entre tu e tu

com o outro alguém além de mim.

Para que os mistérios contenham livros

que se atenham àquilo que os contém.



Para aliviar os egoístas

de suas próprias mortes.

Para que nossa idolatria do erro

remende com ouro

as cerâmicas rachadas da fidelidade.



Para que tombem

as almas das quais qualquer benzedeira

extrai um encosto.

Para forjar talismãs

mais inúteis do que os que nos salvam.



Para que os espelhos sejam torturados

até pararem de nos hipnotizar com a verdade.

Para abraçar a penúltima solidão

quando ela nos reivindica

só para si.



Para iluminar com gritos de orgasmo

os quartos dos idosos

que a escuridão faz dormir.

Para que todas as línguas cultas

convertam em práxis seus clitóris.



Para desengavetar as mil lágrimas

cujo pó habilita para a publicação.

Para que as crueldades

que desatamos a dizer

sempre ecoem em nós.



Para que outra juventude ainda queime

as horas grossas de alho e sal

que me alimentam.

Para fazer chegar estas palavras

aonde não chegam as formigas.



Para que os que desmaiam com susto

sejam beijados pelo que os assombra.

Para matar quem morre

de medo de temer

sua coragem.



Para emendar a minha constituição tão frágil

diante da reserva do possível

e garantir mais do que um mínimo existencial.

Para que o que mais se deseja em juízo

seja preciso.



Para nunca nos esquecermos de quanto viemos

ou para quando vamos.

Para que a criança do futuro

suspeite que os brinquedos de presente

não tem passado de arma.



Para que nos dê o álcool

cada vez mais barato

cobiçado de cara.

Para desengarrafar o que só se liquida

com uma dose de sede. 



Para que os muros sirvam de páginas

cuja razão sempre está do outro lado.

Para deixar crescer os cabelos

como se a sobejar os sistemas

que emaranharão as cabeças.



Para esmolar uma boa maldade qualquer

a quem quero tanto ou encarecidamente

amo.

Para que a nossa valorosa paixão

custe o apreço pela própria alma.



Para conferir o sangue dos sonhos

que a consciência prefere.

Para que lágrimas como punhos

por efeito físico ou causa moral

deem pancadas de chuva no céu dos astrólatras.



Para que o sexo como nós conhecemos

nunca deixe de gerar as estranhas forças

que continuamente desperdiça.

Para acelerar com novos nadas

o suplício lento do mesmo tédio.



Para que mesmo sem causa

tudo surta efeito.

Para asseverar que em tais frenesis

de princípios nomeio sempre

antes esse fim que ri.



Para que as derradeiras respostas

de nosso escasso estoque

reponham lá as questões.

Para que todavia se indague

para quê.