TRANSATRAVESSADOS

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11 de abril de 2013

Fundamentadamente


Neutra, a Ideia nasce.
Nós, homens, depois,
fazêmo-la inflamada.
É o fanatismo do útil
que impõe tal ilusão.

Pensar claro, límpido,
freia a tendência a fé,
o apetite pelo poder,
a obsessão por Deus.

O riso contrapontear
a lucidez implacável,
a elegância lacônica,
é o Nada mais ideal.

E nobilíssimos vícios,
a dúvida, a preguiça,
são a saída pelo Mal
contra os diligentes.
Certeza: tara capital.



14 de fevereiro de 2013

Dentro embora

A sorte, discussão dos historiadores 
(logo ao fundo), dá lugar 
de palavra a este poema. 
Deus, em sonho (rudeza do animal), 
falava pelos cotovelos, de si para si, 
e só este último nada compreendeu. Tão tépido tempo travou. 

Nesse seu instante de vertigem, apanhou a sílabas 
e se achegou a elas, benevolente, 
mas a tremenda resposta (cólera) 
do algum valor filosófico é o que acrescenta com certa pressa: 
foi como se o tivessem rompido, o corpo que se partiu de frio, 
em um mágico alfabeto de fato – castigo eterno para os maus – 
em que ele podia ser habilidoso 
e o que sentiu naquela faquinha 
e o que selvagem tem me usado (oculto seu nome) 
para o que confrontou o interno 
com o dogma, e se ouvirá a voz 
querida deles na fumaça agitada, 
não havia senão o pouco assim, ou nos decifrando. 

O que já se iluminou submetido a mil operações mágicas, 
o que dá para anos de indecisão, procura (não decência). 
Refiro-me aqui à estrita noção – paradoxal: 
a crítica em geral foi seu cinzel. 
Ele considerara cada alternativa, desde as letras 
destinadas a nos castigar diante das suas aspas (seus chifres), 
até certos períodos justificados,
passando pela corrente de saliva a se urdir no que bebo 
para engolir com fé o placebo. 


  

8 de fevereiro de 2013

estrelinha



esquecer deus*, essa Coisa
tão sem notícias
desde a nenhuma aparição
(e fazer Fogo, esse dogma
sem outra obrigação
a não ser transformar tudo
que não é à prova dele).
fundar religiões da rua
segundo terceiros,
e atravessar ainda outras tábuas da culpa
com rabiscos de sesta
com pouco ou mesmo nada de inocência
com cautela para não, e para não apenas.
estar como a lua que já se insinua de dia
(matar a fome, matar a fome
– a nossa filha sempre jovem
e que sempre volta –
diante da porta da velha era,
diante da era da porta velha);
e odiar voar de avião ou de imaginação,
mas amar ser pássaro que põe pássaros.
ser malcriado, e sobretudo,
jamais repetir isto que sou, por vaidade.


* de fato, 
só sei ser 
dessa excelência de ignorância, creio eu; o que cria,
substancialmente cambiante para os vossos gostos,
um vaivém de hábito e vicissitudes, conforme sou informado.



 

14 de agosto de 2012

Quilombonírico

Eu tenho o sonho impossível de fundar um quilombo. 

A gente poderia se encastelar em algum eremitério montanhoso 
no qual o dinheiro seria apenas tiras de papel e botões de metal, 
sem qualquer outro valor além do que deveria ter essa arte ruim 
que produz em série todos esses números redondos e caras feias. 

Queria fugir agora para lá, partir desta infeliz cidade. 
Deixar RG, CPF, saudade,
inúteis ao desembarcar naquela nova liberdade que se descobrirá. 

Eu queria construir uma casa na mata, uma casamata, 
anarcoindividualista primitiva e agnosticista modelar, 
onde estabeleceria esta minha comunidade incomum, 
um búnquer antissistema ou blocausse anticivilização. 

Este lar sem pai ou patrão, 
sem endereço para a pizza 
ou para a fatura do cartão. 

Poucos humanos seriam bem-vindos neste meu abrigo anti-Deus, 
ilha de excelência maldita, embriagada e supermusical. 
Onde ninguém nunca passaria fome, onde todo mundo se come. 
Pequeníssima nação, seríamos um paisinho à paisana, pluriforme, 
em forma de lacônica colônia ou mesmo de misantropa colmeia. 
Seria um asilo adolescente, Eldorado do sobrevivente. 
Uma Cocanha de continente ou Pasárgada emergente. 

Nesta fortaleza dos fracos, 
sem qualquer comunicação com o restante do mundo, 
não seríamos talvez menos tristes, mas seríamos menos os tristes. 
Seria uma sociedade ideal, de aldeões e aldeãs e tesões libertários. 
Seria uma sociedade sem alternativa a não ser estar lá, 
contra todo Estado sólido, 
sendo poucos para poucos, lindos e líquidos e loucos, 
a cantar nosso hino gozoso, tão estúpido e contagioso. 

Um todo à parte, esta tal republiqueta de artistas seria de todos, 
apartidários e expatriados e patéticos, jamais apáticos. 
Autoembargados, teríamos ali o nosso lugar de susto sustentável, 
uma democracia direta, dileta e sem dieta ou regime. 

Nossa população faria saraus como jamais houve, como imagino, 
povoando nosso território com muita lira e punheta, 
uma ditadura do palavreado 
gigante pela própria malícia. Não tem arame farpado. 

Quase um outro planeta, sem guilhotina ou império ultramarino. 
Sem ter exército ou polícia, estaríamos a sós em nossa autarquia. 
E nossa linha de direito seria mais torta do que nós. 
Cumprimentar-nos-íamos com a mão esquerda, só por telepatia. 

Aqui são quase todos perfeitos, os imperfeitos ainda mais sãos. 
Uma contradição anímica a favor da adição química, 
esta nossa turminha tão culta plantaria de tudo, o que é natural, 
sintetizando o que fosse necessário, dialética mente, na verdade, 
já que todos seríamos alquimistas de nossas vidas experimentais, 
recém-regressadas à Era de Ouro de neo-neandertais. 

Refúgio de engenho livre, 
todo sonho de quilombo é nossa usina do impossível. 
Esta utopia seria o meio de nos libertar do tempo da escravidão 
e da escravidão do Tempo, império do mero factível, 
e então o fim da História. 

Esta utopia, mesmo minúscula, poderia ser nômade, festa móvel, 
para que nela o sol jamais chegasse a nascer, nem a balada acabar. 
Esta utopia não teria muros ou fronteiras para dar uma bandeira 
de onde nos encontramos, pois nos acusariam de qualquer terror. 
Esta utopia teria lugar em qualquer lugar onde nós estivéssemos, 
mesmo longe uns dos outros, ou até sem que nos conhecêssemos, 
como se nossas liberdades se encontrassem neste tal quilombo 
que sonhamos em comum. 

Aqui se mora de frente para o mar, que fica de frente para o bar. 
Um oceano ciano com camarões de comer e fumar. 
Aqui tem campos de pomar, com idílicos pés de rede e preguiça, 
e edênicas árvores de vida e de conhecimento, do bem e do mal. 
Tem outro pau que dá sozinho pecado madurinho o ano inteiro. 
Aqui ainda não inventaram o trabalho ou a tortura, 
apesar desses palavrões constarem como sinônimos. 

Ainda não somos imortais, 
mas aqui só precisamos comer ou dormir quando temos vontade; 
aqui as pessoas são de uma raça só, humana, de todos os gêneros; 
aqui a bomba já explodiu, mas ninguém nem ouviu. 

Vem para a minha matutopia ilegível, vem ser ímpio, virar índio. 
Quilombonírico, um escombro lírico. Aqui não se paga o IPTU. 

Vem ver o meu reino invisível, onde todo mundo é rei e está nu.